A música redentora de ‘Nuon’

A música redentora de ‘Nuon’

Leandro Nunes

17 Maio 2017 | 16h16

Fazer o acontecimento teatral se realizar exige, mais que esforço e paixão, uma boa dose de confiança. Ainda mais: é preciso atomizar esse sentimento para potencializá-lo no real – o que vemos, ouvimos e percebemos em cena.

De maneira prática, é preciso provocar com certo atrevimento a equipe criativa com quem se trabalha, sejam estes integrantes do elenco, responsáveis pela sonoplastia, criadores do figurinos e iluminação. A presença de desconfiança no potencial de cada artista é um desafio a lidar nesse tipo de trabalho – ou não se faz teatro, arte das mais solidárias e coletivas no que diz respeita a criação.


Para tal modelo, entretanto, as regras não se acomodam assim tão facilmente, as diferentes hierarquias que constituem o teatro no Brasil são sinais de pluralidade e de certa heterogeneidade saudável as quais permitem que a fruição por diferentes materiais e estéticas redundem em obras que atravessam o tempo e o espaço.

Levando em conta o tamanho do País, isso interessa ainda mais, o que prova a diversidade de lógicas internas na organização de um teatro local que se propõe a pensar o mundo.

Foto: Kelly Knevels

Ao conjugar pesquisa e a reflexão sobre o regime cruel do Khmer Vermelho, no Camboja, o grupo curitibano Ave Lola narra o drama de refugiados da guerra durante a década de 1970 no país.

A deriva estética e a criação de figurinos, caracterização e música delineia o perfil das diversas figuras apresentadas em cena. Atingidas por um arquétipo, as personagens carregam essência da cultura do sul da Ásia, no qual a ancestralidade ainda ecoava e a força dos deuses era solicitada diante do perigo.

Essa construção atravessa os atores: da poesia que a devoção funde na corporeidade ao substrato cultural expressivo que se choca com o imaginário diante da dor real de um regime que mata pessoas. A força brutal da guerra, presente, curiosamente é superior à morte – esta, é fraca afirmativamente, ante as memórias vividas – uma vez que Nuon retrocede para conduzir a narrativa.

Para além da visualidade criada pelos corpos, figurinos e cenografia, a música de Mateus Ferrari se instaura como o grande espetáculo, de fato. Ao demonstrar que a diversidade das notas e instrumentos são capazes de se reconstruírem, a direção musical desobriga as palavras, criando um pano de fundo que suporta o desvelamento do drama, e da busca da beleza diante do medo e do perigo, e fortalece as miudezas poéticas e espaciais do cotidiano.

Ao lado do trabalho corporal dos atores, os músicos são responsáveis pelo esteio criativo da montagem que prescindiria até mesmo de texto falado, dado a diversidade de sonorizações criadas por instrumentos e suas combinações.

Foto: Kelly Knevels

Nesse sentido, a única âncora capaz de estacionar a montagem de sua leveza acidental é o texto falado, por assim dizer. Com tons mais de literatura, do que de teatro, a narração enfadonha da personagem mais velha, Nuon, é capaz de emperrar aos trancos as cenas anteriores.

O excesso de adjetivos e advérbios de modo no texto (completamente, extremamente totalmente, profundamente) denunciam falta de intimidade com dramaturgia, considerada aqui mais que um texto escrito para ser falado em cena.

Ao não conseguir concretizar um interlocutor para si – não fica claro se ela dialoga com a plateia, consigo mesma, ou com ninguém – a personagem não carrega potência de uma fonte de memórias e passa a flutuar pelo palco carecendo de realidade. Cabe a ela o espaço de vírgula deslocada na fluência do espetáculo.

Ao pensar na confiança como matéria-prima de um bom teatro construído e assinado coletivamente é preciso considerar suas partes – música, elenco, luz, texto e direção – como elementos essenciais que se retroalimentam esteticamente com um fim comum, e menos como remendos costurados em um cobertor pequeno numa noite fria.

Ainda que funcione em um ensaio, a cena é cruel e igualmente generosa para desvelar possíveis rebarbas e outras ausências simbólicas. Assumir a competência da própria equipe exige, às vezes, desistir dos próprios fetiches e personalismos, nesse caso, o texto. Não é uma atitude para se tomar em cena, certamente, no entanto, quando a confiança estiver lá, nós vamos enxergar.

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