Cultura

ROLLING STONES

Vamos falar de Cuba e dos Rolling Stones

Muitos falaram sobre as restrições de liberdade na ilha, mas a verdade é que os Stones não estiveram lá antes por questões financeiras

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Alexandre Ferraz Bazzan

28 Março 2016 | 12h04

No último fim de semana fomos inundados por imagens e textos falando sobre a passagem dos dinossauros do rock por Havana. “A última fronteira”, “liberdade” e outras palavras foram usadas para explicar o show. Alguns resgataram a história de que o rock era proibido na ilha, falou-se até em perseguição ao gênero. Vamos colocar algumas coisas em perspectiva histórica e simbólica.

Por mais libertária que fosse a revolução, precisamos entender que ela aconteceu em 1959. Nessa época, a mudança de comportamento promovida por Beatles, Stones e principalmente o “verão do amor”, quase 10 anos depois, em São Francisco era mal vista em quase todos os lugares. Jornalistas tentavam ridicularizar Bob Dylan e passavam vergonha, outros promoviam um boicote contra os quatro de Liverpool depois de Lennon dizer que eles eram mais conhecidos que Jesus Cristo. Existe a lenda de que o Doors foi expulso de um clube após tocar The End e o fato conhecido de que Jim Morrison respondeu processo por fazer gestos obscenos durante um show. O Macartismo ainda colocaria outros artistas em uma lista burra de supostos comunistas que seriam investigados e perseguidos. Isso para não falar de boicotes mais recentes, como o feito contra a Beyoncé por ela criticar a violência contra os negros em seu último single.

Tudo isso, ocorrido nos EUA, poderia ser considerado perseguição, mas nada chega perto do que aconteceu no Brasil, quando artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil tiveram que deixar o próprio país onde nasceram e cresceram para não serem torturados ou assassinados.

Em Cuba, não há registro desse tipo de perseguição e muito menos de uma lei que tenha proibido alguém de escutar essas bandas, que eram de fato mal vistas. Parece que quem vai a Havana se esquece dessas coisas, não olha ao redor, nem mesmo para o próprio quintal. É a parcialidade sem limites.

Foto: Alexandre Meneghi/Reuters

Foto: Alexandre Meneghi/Reuters

Dito isso, nos debrucemos sobre os Rolling Stones. Eles fizeram parte de uma geração que mudou o comportamento e o mercado, mas depois dos anos 1960 eles se tornaram uma grande empresa e as decisões frequentemente passaram a envolver dinheiro. No documentário Being Mick, de 2001, o vocalista mostra o processo de gravação de um disco solo e parte do seu cotidiano. Para encontrar com seus companheiros de banda é preciso que haja uma troca de ligações entre advogados e uma reunião é marcada em um escritório. Cada um chega em um carro separado, eles resolvem as questões pendentes e voltam para suas limusines.

É curioso ver as pessoas escreverem como se os Stones fossem o bastião da liberdade. Tudo bem se emocionar com os clássicos acordes de Satisfaction e Jumping Jack Flash, mas a música, hoje, tem um significado quase próprio, apartado da banda que é uma das maiores máquinas de dinheiro do planeta. Eles faturaram 131 milhões de dólares, em 2015, com apenas 18 shows.

De fato, poucos artistas internacionais tocaram em Cuba desde que os irmãos Castro ascenderam ao poder, mas isso está muito mais ligado a questões comerciais do que de restrição de liberdade. Em 1979, Stephen Stills, Kris Kristofferson e Billy Joel tocaram por lá. Johnny Cash fez dois shows em Guantanamo, em 1987. Manic Street Preachers, The Roots, Elbow, Audioslave, Sepultura, Kool and the Gang, Fito Páez, C.J. Ramone e a Preservation Hall Jazz Band, todos estiveram lá antes dos Stones. É inegável a necessidade de uma acomodação financeira porque não existem empresas produtoras de espetáculos, a economia local está arrasada após mais de 50 anos de embargo e os salários são pífios, entretanto, todos que verdadeiramente quiseram tocaram por lá. Até os Stones abriram mão do cachê milionário, mas pediram que o governo liberasse filmagens para um dvd, o que foi permitido.

A estrutura para receber os ingleses também foi muito criticada, mas imaginem uma cidade de 2 milhões de habitantes, pouco acostumada a grandes eventos, ter que abrigar um show para 500 mil pessoas. As falhas com certeza foram muitas, mas a única digna de crítica é a montagem de uma área vip. Se essa divisão já é condenável com ingressos caríssimos, ainda mais em um show gratuito.

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