O filme novo sobre Kurt Cobain é uma grande porcaria
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O filme novo sobre Kurt Cobain é uma grande porcaria

Morgen gasta duas horas para defender a tese de que Kurt Cobain era um músico famoso, usuário de drogas e suicida

Alexandre Ferraz Bazzan

05 Maio 2015 | 14h34

Toda vez que algo ainda inédito sobre alguém interessante aparece, cria-se uma expectativa enorme. Brett Morgen com certeza soube vender seu novo projeto. Entrevistas emocionadas, música inédita, um cover de Beatles de dilacerar o coração e um trailer enigmático que despertaria o interesse até de quem não vai com a cara de Kurt Cobain. A cereja do bolo ficou por conta da declaração de Frances Bean dizendo que só agora estava conhecendo o pai realmente.

Foto: Reprodução - Pôster de Montage of Heck

Foto: Reprodução – Pôster de Montage of Heck

Morgen não traz nada de novo. Todas as informações contidas em Montage of Heck eram notórias para quem leu a biografia e acompanhou a carreira do atormentado cantor. O diretor perde um tempo precioso tentando provar a tese de que o Nirvana era famoso. Pode ser que daqui 100 anos essa informação seja relevante, atualmente é o mesmo que dizer que a água é molhada. Qualquer um que não nasceu em Marte responderia: “é, eu sei”, mas é como se Morgen dissesse – “não, espera, a água é muito molhada mesmo.” Ah, você jura?

Aí você tem aquela parte com pessoas do mundo inteiro falando o nome da banda e com imagens de jornais para reafirmar a importância do cara. Esse parece ser o maior clichê da atualidade, pode pegar qualquer documentário sobre música e você terá um trecho montado deste jeito – de Nina Simone a Pearl Jam.


Algumas capas de revistas aparecem e jornalistas são ridicularizados por perguntas bem estúpidas, mas isso é feito de forma menos elegante e inteligente do que Bob Dylan fez nos anos 60. Nada novo. É então que vem a paulada em Lynn Hirschberg, uma repórter super famosa que tenta ‘colunizar’ coisas profundas como uso de drogas e a luta dos Tigres Tamil (grupo separatista perseguido no Sri Lanka(isso explicando de maneira porca um assunto muito mais complexo)). Hirschberg escreveu na época um artigo dizendo que Courtney Love havia usado heroína enquanto esteve grávida e a resposta de Love, consequentemente do diretor, é que ela sabia que o bebê estaria bem, que não foi grande coisa. Me parece que ele quer fazer uma crítica ao tipo de cobertura da mídia, mas usa uma justificativa tenebrosa. A questão é a forma conservadora e invasiva com que nós jornalistas tratamos qualquer tema, especialmente com pessoas públicas, não a saúde de Courtney ou da filha, que com certeza ninguém poderia prever.

Voltando ao filme. Morgen ainda gasta algum tempo para dizer que Kurt Cobain era usuário de heroína e, de certa forma, suicida, coisa que até minha avó sabe. No fim das contas, o projeto todo parece uma forma de colocar panos quentes em questões familiares. A mãe abandonou o filho, mas ele era muito ativo e depois ela foi boazinha com ele. O pai e a madrasta fizeram o mesmo – “na verdade ele queria estar com a mãe.” Courtney usou heroína na gravidez: “mas eu sabia que ela nasceria saudável, isso nunca me preocupou.” Até a namorada, Tracy, passa por coitada: “eu não sabia que ele usava heroína, ele nunca disse nada enquanto esteve comigo.” Suponho que deva ser algo fácil de esconder. As críticas que faço aqui não são nem às pessoas, no fim das contas cada um sabe o que injeta na própria veia, ou cabeça, mas sobre a forma como o documentário é montado. É como se Morgen quisesse criticar as mesmas coisas que ele exalta.

As animações, em grande parte, resolvem de forma competente quando só existe arquivo de áudio, melhor do que colocar uma fitinha rodando ou uma imagem estática. No fim das contas, um filme ruim sobre Kurt Cobain é muito melhor que um filme ruim sobre o Justin Bieber. Não deixa, porém, de ser um filme ruim.

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