Entrevista: Regis Martins, ‘o Jack White dos pobres’
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Entrevista: Regis Martins, ‘o Jack White dos pobres’

Vocalista da Motormama fala sobre o novo disco 'Fogos de Artifício' e a homenagem a Júpiter Maçã

Alexandre Ferraz Bazzan

13 Fevereiro 2017 | 16h18

Em agosto de 2016, durante a promoção do Festival Fora da Casinha, o produtor Mancha Leonel(da Casa do Mancha) falou ao jornalista Alexandre Matias quais eram, para ele, as 10 músicas mais importantes do indie brasileiro. Entre as pérolas, estava Coração Hardcore, da Motormama.

A banda tem 17 anos de estrada, tocou no Pop Festival de Montreal, no Primavera Sound de Barcelona e em vários buracos pelo Brasil. Os lançamentos sempre tiveram um bom espaço entre um disco e outro, mas essa dinâmica parece ter mudado recentemente. O último álbum completo tinha saído em 2010 (Aloha Esquimó), mas, desde 2015, a produção se intensificou. Primeiro um EP fora do Motormama como Regis Martins & Cia Fantasma, depois outro compacto em 2016 e agora um novo disco, Fogos de Artifício.

Regis Martins, que canta e toca guitarra, fala sobre Fogos de Artifício, alegrias e decepções da carreira, a homenagem a Júpiter Maçã e o processo de composição. Leia a entrevista e escute o novo disco.

Foto para a divulgação de 'Fogos de Artifício': Thiago Carbonari, bateria; Joca Vita, baixo; Alessandro Perê, teclados; Régis Martins, vocais e guitarra; Gisele Z, vocais

Foto para a divulgação de ‘Fogos de Artifício’: Thiago Carbonari, bateria; Joca Vita, baixo; Alessandro Perê, teclados; Régis Martins, vocais e guitarra; Gisele Z, vocais

Vocês tinham feito um ep ano passado, né?

Sim

Quais músicas do disco estavam no ep?

Três canções: Metti La Macchina!; Não Sou Mais o Mesmo Sujeito e Se o Mundo Desmoronar (Nunca Perca a Cabeça). É uma frase da música Não Sou Mais o Mesmo Sujeito. O EP se chama: Se Eu Sangrar, Não Chores Não

Mas você escreveu as outras cinco depois de ter feito o EP?

Sim, hehe

Caralho, foi rápido, então

Um trabalho intenso junto com a banda. Esse disco foi praticamente feito no estúdio

Cara, você tá mais prolixo nos últimos anos, não? Digo, de composição

Sim, uma espécie de Ty Segall (ou Jack White) dos pobres, uahauaha. Acho que é fase, tem período que não sai nada

Você vê algum motivo pra isso?

Não sei, talvez eu esteja mais focado. Para compor, é preciso muito treino. De cada música que você compõe e que realmente gosta, três outras foram para a lata do lixo… No caso do disco do motormama, contei muito com o apoio da banda. Os arranjos foram muito importantes. Algumas músicas mudaram completamente… É um disco de banda, com certeza.

Mas quando você fala que compôs em estúdio… Você chega já com ideias, letras, melodia etc e muda, ou foi meio do zero?

Todas as músicas estavam ensaiadas, mas, em vários casos, os arranjos e as letras estavam incompletos. A gente foi percebendo com o apoio imprescindível do nosso produtor Romulo Felicio

Entendi

Existiam vários ‘buracos’, que ele foi nos ajudando a ‘tapar’

Mas a composição inicial como é? Você sozinho? Você faz letra ou música antes?

Eu sozinho, no violão, muitas vezes com um copo de vinho, para destravar a melodia. Faço a música antes, depois encaixo a letra e mostro para a Gisele(Zordão, com quem Regis divide os vocais na banda), que dá suas opiniões. Ela fala: “olha isso aí tá ruim, o que acha disso?”

Massa

É minha primeira ouvinte

Blumenau, 2003, ainda com o baterista Ricardo Noryo e o tecladista

Joinville, 2003, ainda com o baterista Ricardo Noryo e o tecladista Gustavo Acrani

Cara, sobre Se o Mundo Desmoronar (Nunca Perca a Cabeça)… foi desde o começo uma homenagem ao Júpiter Maçã?

Sim, sempre. Fiquei muito triste com a morte dele. Foi um cara que realmente me influenciou. E ele andava bem estranho antes de morrer. Sozinho, deprimido. Júpiter foi um desses talentos injustiçados. Aí a música foi saindo

Mas você conhecia ele? Trocava ideia?

Nada. Conheci uma vez em Goiânia. A gente ia participar de uma festa pré-bananada(festival de rock goiano) e ele era o headliner. Ficamos no mesmo hotel, fomos a boteco juntos e ele sempre um pouco distante, dândi, levemente lunático. Era meio que um personagem, mas chegamos a conversar sim. Ele falava num idioma só dele: inglês, francês e gaúchês. Ele adorou nosso show e veio nos cumprimentar. Falou em inglês: “Ahm, congratulations”

Hotel Prince, em Goiânia, com o antigo tecladista Gustavo Acrani, Regis, Gisele e Joca

Hotel Prince, em Goiânia, com o antigo tecladista Gustavo Acrani, Regis, Gisele e Joca

Ahahahah que figura

Figuraça, mas me disseram que ele deu uma pirada boa depois quando mudou-se para São Paulo. Sei lá

Faz sentido

A fase que ele pintou o cabelo de loiro… teve programa na MTV

Mas eu perguntei sobre Se o Mundo Desmoronar (Nunca Perca a Cabeça) porque faz muito sentido ser uma homenagem por causa da música, mas a letra eu achei bem mais universal, um misto de cair na realidade de que os sonhos provavelmente não vão acontecer, mas também tudo bem…

É isso mesmo. É uma música dedicada a todos aqueles que “quase aconteceram”. A maioria dos meus idolos no Brasil não foram sucesso, caras respeitados que sempre ficaram na sombra

Quem mais?

Ah mano, Arnaldo Baptista e muitos dos meus amigos e contemporâneos que estão aí na luta se fodendo nesse cenário, hehe… e também é como se eu estivesse falando para mim também

Entendi

Minhas bandas prediletas nunca fizeram sucesso: Fellini, Mercenárias… Mutantes é a que as pessoas mais conhecem, mas veja o Arnaldo… uma figura trágica

Com certeza. Cara, e “meia-noite eu vou cantar um versinho popular”(trecho da música Foi Pelo Dinheiro, Foi Por Diversão). De onde saiu isso? Foi uma coisa singela também que quando eu ouvi a primeira vez me abriu um sorrisão.

Sim, essa musica em si é bem brejeira. É um baiãozinho que acabou ganhando um arranjo complexo graças ao Thiago (Carbonari, baterista) e o Joca ( Vita, baixista). É meio interiorana, como se fosse um seresta embaixo da janela da namorada

Legal isso

Gosto muito do vocal da Gi nessa música. Talvez eu tenha feito para ela, mas é algo tão inconsciente

Banda se apresentou na feira do livro de Ribeirão Preto em 2009; na foto, a vocalista Gisele Zordão

Banda se apresentou na feira do livro de Ribeirão Preto em 2009; na foto, a vocalista Gisele Zordão

Sim, estão bem bonitos os vocais. A capa é uma junção de Rocket’s Tail e Fogos de Artifício, né?

Cara, matou a charada. Nem eu tinha percebido. Você ouviu o disco hein? hehe. Mas isso é da cabeça do Joca, que faz as capas dos nossos discos… só não fez do Aloha Esquimó (2010)

Você nem interfere com ideias? Ele chega com a capa e tal?

Sim, interfiro pouco. Ele vem com quase tudo pronto. Aí a banda dá alguns pitacos. Mas a gente não muda muito, não. Essa capa veio pronta. Nosso sonho é que se torne uma capa de LP. Ela tem esse formato

Eu vejo que as bandas sempre têm essa vontade. Qual a importância de ser um LP para você?

Total, primeiro porque sou fã e vivo gastando dinheiro com isso. Segundo, porque não me acostumo com esse mundo digital. Preciso do produto físico. O disco é algo tão artesanal, ‘vivo’, que parece de outro mundo. Mas ainda é muito caro fazer. Entonces, vamos prensar o CD antes. Talvez o disco fique para o final do ano.

Encontro com o Boogarins em Barcelona; as duas bandas tocaram no Festival Primavera Sound, em 2014

Encontro com o pessoal da Boogarins em Barcelona; as duas bandas tocaram no Festival Primavera Sound, em 2014