Elliott Smith no Oscar foi meu ‘Beatles no Ed Sullivan’
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Elliott Smith no Oscar foi meu ‘Beatles no Ed Sullivan’

Cantor se matou 13 anos atrás com duas facadas no peito após discussão com a namorada

Alexandre Ferraz Bazzan

22 Outubro 2016 | 23h54

O rock, como todas as outras áreas da vida, tem seus momentos históricos ou de mudança. A disposição de Elvis em presentear a mãe cantando músicas religiosas, o show “elétrico” de Bob Dylan, a primeira vez que os Ramones pisaram no CBGB. De todos os momentos, talvez o mais importante seja a estreia dos Beatles na TV americana chacoalhando o auditório do programa Ed Sullivan e milhares de pessoas que acompanhavam em casa. Eu não estava vivo quando isso aconteceu.

Em 1998, eu morava em um hotel na Praça Rui Barbosa, no centro de Uberaba. A praça tinha um daqueles antigos cinemas de rua e, poucos dias antes da cerimônia do Oscar, eu fui assistir ao Titanic para poder falar mal do filme com propriedade. Mesmo meses passados da estreia, a sala estava lotada. Meninas sentavam no chão e davam pequenos suspiros cada vez que Leonardo DiCaprio aparecia. Eu odiei, lógico. Pior que o filme, só a música da Céline Dion que tocava a todo momento nas rádios.

O dia da premiação chegou e eu não conhecia muito os indicados. Minha única predisposição era torcer contra o Titanic. Quando aquele cara de terno branco subiu ao palco dizendo: “I’ll fake it through the day with some help from johnny walker red”, eu não tive dúvida, ele teria minha torcida.

Elliott Smith obviamente não venceu o Oscar porque a “academia” não baseia suas decisões apenas no mau gosto e no preconceito, mas também existem forças financeiras por trás de cada estatueta, seja ela um grande estúdio ou gravadora.


Pela música, e pelos dois jovens atores entusiasmados com o prêmio de melhor roteiro, fui assistir Gênio Indomável algum tempo depois. Além de Miss Misery, que concorreu ao Oscar, a trilha sonora tinha outras pérolas do cantor. Say Yes é ainda, ao lado de Happiness e Thirteen, do Big Star, a música que eu tenho vontade de gravar em todas as mixtapes para alguém que eu goste. Ela aparece em um momento muito legal do filme, quando Will e Skylar estão se conhecendo no primeiro encontro.

A trilha sonora foi a porta de entrada para Elliott Smith e ele já tinha feito tanta coisa. Comecei pelo disco XO, que foi lançado pouco depois do filme, e, curiosamente, Miss Misery não estava ali. Em vez disso, tinha Waltz #2, Baby Britain e Bled White que destoavam completamente da voz e violão que eu esperava dele. Depois disso, fui ouvir o álbum Either/Or. Esse, sim, tinha todas as músicas da trilha sonora de Gênio Indomável, menos a que tinha sido indicada ao Oscar.

Quanto mais eu voltava na carreira de Smith, mais em contato eu entrava com as músicas acústicas, um descompasso se você pensar que ele saiu de uma banda de rock meio punk, meio emo, para apostar na carreira solo. É como se ele precisasse do silêncio antes de voltar a encher suas canções de barulho.

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

Figure 8 foi o disco mais “cheio” em termos de instrumentação e também foi o último lançado em vida. A icônica capa, sem querer, deixou um memorial para os fãs, que passaram a escrever mensagens para o cantor depois de sua morte.

figure 8

Elliott_Smith_Memorial_Wall

Ainda antes de morrer, Elliott disse que estava compondo umas músicas estranhas, meio barulhentas. Algumas coisas foram lançadas postumamente(From a Basement on the Hill, New Moon e a trilha sonora do documentário Heaven Adores You) e a impressão que fica é que ainda existe muito material guardado e que pode ser lançado a qualquer momento.

São mais de cem canções compostas entre Heatmiser, carreira solo e discos póstumos, ainda assim, nada disso é suficiente. Elliott é daqueles artistas que adoravam música e que criavam com a mesma ferocidade que ouviam. Com ele aprendi a gostar de Big Star, Cat Stevens, Hank Williams Jr., Kinks, Nico e tantos outros.

Não existe nenhum artista no mundo que pode te acompanhar durante uma fossa tão bem quanto Elliott Smith. Talvez um distante segundo lugar fique com Nick Drake, mas o volume de trabalho é muito menor.

Que vocês tenham um bom resto de fim de semana.