David Bowie não inventou a mudança
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David Bowie não inventou a mudança

Alexandre Ferraz Bazzan

17 Janeiro 2016 | 18h52

O menino acorda, pega o celular e, como sempre faz, passa pelas últimas postagens do Facebook. Uma foto do Ziggy, um clipe de Heroes, até chegar na notícia: “David Bowie morre aos 69 anos”. Incrédulo, ele levanta e vai até o quarto da mãe, como se ela pudesse negar a notícia.

“Mãe, o David Bowie morreu”

“Do que?”

“De câncer”

“Nossa, eu nem sabia que ele tinha câncer”

Ele sai, vai ao banheiro, toma um banho e faz o que é possível nessas horas. Chora.

Bowie não inventou a mudança. Antes dele, Muddy Waters, Nina Simone, Bob Dylan, Jimi Hendrix e Beatles já tinham se reinventado algumas vezes, mas não sem alienar muitos dos fãs e críticos. Dylan recebeu ameaças de morte por trocar o violão pela guitarra elétrica. É bem verdade que o fim de Ziggy Stardust pode ter provocado reações semelhantes, mas quando o Thin White Duke o substituiu a impressão era de que o alienígena poderia viver apenas na memória.

Nós não gostamos de mudanças e isso não tem nada a ver com a pessoa que muda. Não deixamos de gostar dela porque a nova personalidade nos desagrada, mas sim porque nos mostra que continuamos os mesmos e transformação é muito difícil. Sair da zona de conforto é uma tarefa hérculea. Bowie fazia isso sem alienar as pessoas, pelo contrário, era admirado por conseguir fazer isso, por se manter relevante, icônico.

giphy

 

A importância das coisas. Artistas como Andy Warhol, Elvis, Beatles, mudam o mundo e influenciam todos os que nascem depois deles. David Bowie conseguiu ser referência para quem veio antes. É impensável que alguém pudesse ensinar alguma coisa a Lou Reed ou Iggy Pop, mas ele conseguiu. ‘Ele me ressuscitou’, disse Iggy ao The New York Times.

Groucho Marx é autor de uma das melhores frases cunhadas na história das frases: “Eu pretendo viver para sempre, ou morrer tentando”. Eu não tenho muitas certezas, mas sempre carreguei essa máxima comigo. Em tempos com perdas tão significantes, viver para sempre parece mais difícil, não pelo desafio de vencer o tempo, mas porque a eternidade parece menos atraente.