Bob Dylan: um cantor que desagrada músicos e um poeta criticado por escritores
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Bob Dylan: um cantor que desagrada músicos e um poeta criticado por escritores

Com o prêmio Nobel, Dylan consegue a segunda coisa que ele faz de melhor, que é contrariar as pessoas; a primeira, obviamente, é escrever músicas

Alexandre Ferraz Bazzan

14 Outubro 2016 | 02h01

Em 1966, François Truffaut adaptou o livro Farenheit 451, de Ray Bradbury, para o cinema. O enredo é sobre uma sociedade totalitária em que os bombeiros, em vez de combaterem incêndios, queimam livros. Um destes bombeiros começa a guardar livros e é obrigado a abandonar a mulher e fugir para a floresta. Lá, ele descobre que as letras impressas em papel são irrelevantes. O importante são as histórias.

Quem acha que literatura deve estar encapsulada em páginas de um livro esquece que as histórias existem antes do papel ou sequer dos alfabetos. Aliás, existem comunidades indígenas com idiomas específicos, mas apenas falados. Isso em 2016.

Premiações são sempre polêmicas e envolvendo cultura, então, fica mais difícil. É possível que exista alguém vivo mais importante para a literatura do que Bob Dylan, mas é inegável a contribuição dele. Suas letras foram usadas por movimentos que lutavam por direitos civis nos anos 1960.

Foto: Douglas R. Gilbert/divulgação

Foto: Douglas R. Gilbert/divulgação

Em um momento de intensas mudanças, ele entendeu seu tempo como ninguém. Traduziu isso em palavras cantadas como nenhum estudioso ou escritor poderia e é possível afirmar que a importância dele na música foi colateral. As letras eram tão importantes, que faziam as canções serem analisadas a fundo. Antes dele, pouco importava se um cantor compunha as próprias músicas, mas ele mudou isso também.

Certa vez, o jornalista Greil Marcus perguntou ao compositor qual era o ponto chave de sua carreira. “Like a Rolling Stone“, respondeu o cantor. Ele escreveu 20 páginas, no que chamou de “vômito”, que virariam uma das canções mais importantes do século 20. É algo equivalente aos 47 finais que Hemingway(outro prêmio Nobel) escreveu para Adeus às Armas. “Depois que eu escrevi isso, eu não estava mais interessado em escrever um romance ou uma peça de teatro. Eu tinha muito. Eu queria escrever canções. Porque era uma nova categoria. Eu quero dizer, ninguém nunca havia escrito canções antes, na verdade”, diz ele a Marcus. Com isso, ele quer dizer que o que importava antes eram as melodias. Mesmo com músicas cantadas, as letras eram acessórios.

Dylan passou a vida inteira sendo criticado por cantar mal e agora, com o Nobel, passou a ser criticado por não ser um escritor à altura do prêmio. Por sorte, ele se especializou em desagradar as pessoas desde seu primeiro show elétrico em Newport e, pelo visto, pretende desagradar até o fim da vida.