‘Stella Manhattan’ é o romance queer que o Brasil precisa
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

‘Stella Manhattan’ é o romance queer que o Brasil precisa

Livro de Silviano Santiago publicado em 1985 ganha reedição com capa rosa-choque, dezenas de lições para o País e imensa criatividade poética

Guilherme Sobota

24 Outubro 2017 | 14h33

O ano é 1969 e Stella Manhattan cantarola de dentro do seu apartamento em Nova York: “ó jardineira, por que estás tão triste?”. E depois: “Wonderful morning, what a wonderful feeling!” (o bom humor matinal, claro, se deve à noite bem sucedida de sexo com um novo amor, quem nunca). A vizinha da frente olha pela janela: “He’s nuts”. Quem?, pergunta o marido. “The Puerto-rican who lives in the building across the street.”

+ Arte e sexualidade: fique por dentro do debate

O Puerto-rican é na verdade Eduardo da Costa e Silva (sobrenome familiar?), enviado pela ditadura para trabalhar no consulado brasileiro em NY depois de algum evento traumático com a família conservadora no Brasil. Mas ele é na verdade Stella Manhattan, “o galo cocoricó que cantava de político no apartamento de Eduardo”.

“Stella era muito pouco nacionalista. Queria uma verdade política nova e libertária, de uso pessoal e coletivo, que imaginava calado sem chegar a formular, mesmo porque não seria capaz. Mais um feeling bem lá dentro, no profundo do profundo, do que um raciocínio racional e verbalizável. Foi deixando Stella sair das quatro paredes do quarto, sair de casa, descer o elevador, andar na rua, conversar com as pessoas, desmunhecar, que Eduardo foi se distanciando politicamente dos brasileiros que buscava.”


O trecho, como deu para perceber, é de Stella Manhattan, romance de 1985 de Silviano Santiago que a Companhia das Letras agora reedita, com uma relevante capa rosa-choque.

PORQUE10 - RJ - 31/07/2014 - FLIP/SEGUNDO DIA - CADERNO 2 OE - O escritor Silviano Santiago, durante a mesa

Silviano Santiago, em 2014, na Flip. Foto: Marcos de Paula/Estadão

Santiago já era um intelectual importante e romancista vencedor do Jabuti quando lançou Stella Manhattan, e é de se imaginar que o livro tenha causado sensação, mas a questão deste texto é destacar como ele permanece inventivo (na forma e no conteúdo) 32 anos depois. Noves fora o binarismo estúpido em que vivemos (que eu acredito acentuado, mas vai saber), é um alívio ler uma ficção que fuja das soluções fáceis para lidar com temas sempre contemporâneos.

+ Literatura no vácuo: os escritores brasileiros vão bem, obrigado, mas os leitores nem tanto

Eduardo acaba envolvido na disputa política de uma célula de guerrilha brasileira fazendo planos em Nova York; com o amigo Vianna, ou Coronel Valdevinos, ou melhor ainda, a Viúva Negra (o coronel é fã de um sadomasô); com o amigo Paco, ou melhor, Lacucaracha, um cubano anticastrista que mora do outro lado do corredor e que levou “pequenos e sucessivos calotes” de um ex-namorado, jornalista brasileiro; o professor Aníbal, que segundo consta é inspirado em Wilson Martins (Aníbal é um super reaça professor de Columbia, que protagoniza aqui uma das melhores cenas de sexo que eu já li em toda a minha vida); e Rickie, o americano que lhe forneceu a alegria para a manhã que abre o livro (e este texto).

O livro é divido em seções, o narrador muda em cada uma delas, reflexões agudas sobre arte e sexualidade aparecem o tempo todo: o que melhor do que um romance divertido para pensar de forma inteligente sobre o assunto do momento.

Só uma parte da cena de sexo a que me referi:

“Aníbal vive intensamente a espera. Conhece todos os meandros e as delícias da espera, como se tivesse morado até hoje apenas na sua geografia e vivido o seu drama. Para ele, a espera é uma forma de ruminar silencioso, um saara luminoso e monótono por onde a alma transita sem barreiras e sem limites, buscando as graças do fluir (o fluir natural do rio pelo seu leito previsível), do flutuar (a folha seca questionando a gravidade ao ser acolhida e envolvida pelos braços ásperos do vento), do levitar (os objetos levantam voo instigados pela força do pensamento), as graças de um corpo que se desprende das amarras terrenas e passa a ter como companheiros borboletas e pássaros, gaivotas e pombos, o urubu e o gavião.”

E eu nem mencionei a parte literal da parada!

Num ensaio escrito para o Suplemento Pernambuco em 2015, e agora reescrito para o prefácio desta edição, Santiago diz que “aparentemente, o protagonista do romance se divide em dois: o jovem Eduardo e a atrevida Stella. Na verdade, se divide em três, já que importa é o lugar da intersecção de um no outro, do Outro no Um. Importa o eixo cilíndrico da dobradiça que destranca e vai abrindo a porta Stella até então reprimida pela rigorosa esquadria de nome Eduardo. Computa-se o três — a “diferença simétrica” entre dois, como se diz na teoria dos conjuntos, entre Eduardo e Stella”.

Não por acaso, as dobradiças se referem a Bichos, de Lygia Clark, a obra interativa que, em uma releitura recente, gerou gritos estridentes, irracionais e lamentavelmente ignorantes.

Stella Manhattan é o romance queer que o Brasil precisa (e continua precisando, muito, 32 anos depois) para, pelo menos um pouco, deixar de ser um desastre.

STELLA MANHATTAN

Autor: Silviano Santiago

Editora: Companhia das Letras (288 p., R$54,90, R$37,90 o e-book)