O hype de ‘The Square’ simplesmente não se justifica
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O hype de ‘The Square’ simplesmente não se justifica

Com uma abordagem moralista do mundo contemporâneo, filme vencedor de Cannes tem tramas inverossímeis e críticas superficiais

Guilherme Sobota

01 Março 2018 | 13h31

Com atraso, vi ontem The Square, o filme do sueco Ruben Östlund que levou entre vários outros prêmios a Palma de Ouro do Festival de Cannes, provavelmente o prêmio mais prestigiado do cinema de arte do mundo. No domingo, o filme concorre ao Oscar de filme estrangeiro.

Esses são só dois dos elementos que fizeram de The Square um dos filmes mais hypados do ano passado.

Mas o que aparece nos 151 minutos que eu perdi da minha vida assistindo ao filme simplesmente não justifica o hype. Numa tentativa absolutamente vã de “corromper” o politicamente correto, o filme mostra uma absurda falta de empatia com o mundo globalizado, as questões atuais e com crises socioeconômicas muito mais graves que as da Suécia.

Cena de ‘The Square’, de Ruben Ostlund Foto: Magnolia Pictures

(A partir daqui vou dar detalhes do enredo, spoilers).

O filme começa com duas cenas boas: a entrevista super estranha de Anne (Elizabeth Moss) com o personagem principal, Christian (Claes Bang), e depois o encontro (também estranho) de Christian com transeuntes na rua, que acabam lhe roubando o celular e a carteira.

Aqui tudo começa a desandar.

No pacto ficcional que o filme propõe, a reação de Christian ao roubo não é apenas absurda, descabida, exagerada: é completamente inverossímil.

Por que um ricaço curador de museu de Estocolmo vai se dar ao trabalho de ir até a “quebrada” da cidade com seu carrão elétrico, invadir um prédio e colocar cartas ameaçadoras em mais de 50 apartamentos?

No máximo, ele dirige, puto, até a próxima Apple Store e compra o modelo mais novo do iPhone.

Se toda essa elasticidade do roteiro foi usada apenas para justificar a inclusão, mais tarde, do menino com a carta (Elijandro Edouard), bem, então tudo bem, porque ele é um dos dois únicos refrescos autênticos do filme (muito pouco para tanto incenso).

Logo no início já começam a aparecer os takes com os mendigos da Suécia. Foi uma escolha e o diretor é livre para filmar o que bem entender, mas como morador do centro de São Paulo é difícil não sentir um embrulho no estômago com a abordagem desavergonhadamente elitista do filme.

Qual é a motivação artística desses takes nesse contexto? Não pude pensar em nenhuma resposta que não passasse por completa falta de empatia com o mundo real, e certo senso de desprezo, esbarrando, especulo, no puro e simples racismo.

Outra subtrama do filme, a do vídeo publicitário, é igualmente inverossímil.

É claro que essas campanhas desastrosas acontecem e a gente vê por aí casos absurdos de machismo, racismo e transfobia (para citar uns que me vêm à cabeça), por exemplo, além de campanhas fantasmas mal-sucedidas.

Mas isso muito dificilmente ocorreria num museu de arte contemporânea, um ambiente supostamente preocupado com questões atuais, com várias reuniões para discutir a questão, e uma equipe de controle (insuportável, diga-se de passagem) que o filme faz questão de esfregar na sua cara.

Por que, para começo de conversa, aqueles dois publicitários idiotas estão ali? Não é metáfora, não é nem alegoria, não faz sentido nenhum, não tem nenhum valor estético em jogo.

A paródia à vontade de viralizar a qualquer custo, portanto, perde força e tem aqui a superficialidade de um pires.

E Elizabeth Moss? A atriz que ficou marcada por representar mulheres incríveis na TV aparece aqui como uma personagem totalmente descartável. Ela é só uma pedra no caminho do curador, e ainda assim…

Aliás, o curador. Claes Bang, o ator, ganhou tudo que é prêmio por aí, então certamente eu estou errado, mas para mim foi difícil enxergar qualquer grau de profundidade nesse personagem.

Um artista ricaço e mulherengo, bem de vida, com duas crianças saudáveis e cujo maior problema é um moleque de 13 anos que grita com ele na entrada do apartamento? Ou depois ser demitido por fruto de sua própria e inverossímil incompetência?

The Square é tão eurocentrado, tão isolacionista, em 2018 (ou 17): a abordagem do filme em relação a tudo (arte contemporânea, relacionamentos, desigualdade social) parece tão conservadora e moralista que só faltou um subtítulo: Make Sweden Great Again.

Veja: não são (necessariamente) personagens moralistas, reacionários. É mais do que isso: é a abordagem do filme, em si.

O impulso de chocar a burguesia europeia é uma vertente de cinema por lá (Lars von Trier, Michael Haneke, etc). Mas aqui, Östlund falha em criar histórias ou mesmo sensações nas quais seus colegas se especializam.

Happy End, o Haneke mais recente, é pra mim em tudo superior a The Square (ao levar para a telona uma família de ricos que acaba cercada pela questão dos refugiados).

Além do garoto raivoso com a carta, The Square tem um outro bom momento na performance de Terry Notary, em que ele age como um animal raivoso num jantar de bacanas.

A performance é impactante, bem filmada e sugere, sim, uma investigação de motivos humanos mais, digamos, selvagens.

De novo: muito pouco para tanto incenso.

Östlund é livre para filmar o que quiser, e não quero cair em armadilhas pudicas para criticar uma obra de arte. Mas a abordagem desse filme em relação ao mundo me parece, simplesmente, atrasada.

*

Os críticos (de verdade) de cinema do jornal escreveram sobre o filme:

Merten: Ruben Östlund dirige o polêmico e premiado ‘The Square’

Zanin: ‘The Square’, o caos sob a capa fina do politicamente correto

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