Chico Buarque varreu prêmios literários e sempre figurou na lista de mais vendidos
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Chico Buarque varreu prêmios literários e sempre figurou na lista de mais vendidos

Cantor e compositor voltou à música para lançar 'Caravanas', mas hoje em dia é também reconhecido como escritor literário; veja a repercussão de seus romances nas páginas do 'Estado'

Guilherme Sobota

22 Agosto 2017 | 08h00

Ulisses, “conto de Francisco Buarque de Hollanda e ilustração de Giselda Leirner”, estampava o Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo do dia 30 de julho de 1966, a estreia oficial de Chico Buarque na literatura — uma carreira que, somada às suas composições ao longo das últimas seis décadas, hoje também é consagrada com destaque por público e crítica.

Com o Nobel de Literatura atribuído a Bob Dylan ano passado, já não há mais desculpas para tratar do cancioneiro de gente como Chico Buarque fora do âmbito literário (inclusive). Na próxima sexta-feira, 25, Chico lança Caravanas, seu 23º álbum de estúdio.

AUSTERCHICO3 PARATY 10/07/2004 CADERNO DOIS AUSTER/CHICO O compositor e escritor Chico Buarque e o escritor Paul Auster participam da mesa de debates

Chico lê um trecho de ‘Budapeste’ em uma mesa com Paul Auster na Flip de 2004. Foto: Mônica Zarattini/Estadão

Ulisses, o conto, começa assim: “Ulisses chega de galochas, barba por fazer, embrulho fofo, paletó triste… Mas Ulisses chega de braços enormes e eufóricos: – Penelope, ô Penelope, minha princesa! Abre os olhos e as janelas! Abre o peito, Penelope, que seu rei chegou!”. Uma das maravilhas da internet é que você pode ler o conto inteiro, no Acervo, conforme foi publicado há 51 anos (clique aqui).


Mas seu primeiro romance, porém, só veio 25 anos depois, em 1991 (Fazenda Modelo, lançado em 1974, é definido pelo próprio Chico como uma “novela pecuária”, e teve pouca repercussão na época). Estorvo foi publicado pela Companhia das Letras (como toda sua obra posterior) e figurou na lista de mais vendidos (bem, como toda sua obra posterior).

Na primeira crítica do romance publicada no Estadão, o ex-editor executivo do jornal, José Onofre, não teve dó. Apesar de escrever que o livro era “bem realizado”, cravou que “as predileções literárias do compositor Francisco Buarque de Hollanda não têm o lirismo de seus melhores versos”. A crítica, publicada no dia 1º de agosto de 1991, veio acompanhada de uma matéria de Eric Nepomuceno. O romance rendeu a Chico seu primeiro Jabuti. Leia aqui.

Quatro anos depois, em 1995, veio Benjamin, e a recepção foi um pouco melhor. Com o título “Chico Buarque joga com as aparências”, a crítica assinada por Mauro Dias dizia que “a narrativa conduz o leitor como uma câmera de cinema, em zooms e planos gerais”. Leia aqui um trecho da entrevista.

Budapeste veio a seguir, em 2003, oito anos depois. A reportagem do mesmo Mauro Dias no Caderno 2 destacava que Chico sentia olhares estranhos quando lançava seus livros no exterior. “A Europa permite que nós, exóticos terceiro-mundistas, façamos música boa; literatura boa é coisa para eles. Somos exóticos, não somos intelectuais”, disse o escritor na época.

“De novo, e melhor do que antes, Chico Buarque cria um livro que se constrói na escritura”, escreveu o jornalista. O livro fez Chico levar seu segundo Jabuti. Leia a reportagem de 14 de setembro de 2003 aqui.

Capa do Caderno 2 de 14 de setembro de 2003, com desenho de Baptistão. Crédito: Acervo Estadão

Leite Derramado veio em 2009 com as melhores críticas que Chico havia recebido até ali. “Leite Derramado é um livro maior, em que Chico Buarque dá um passo além de Budapeste e alcança na ficção a mesma potência vernácula e imaginativa de suas melhores canções”, escreveu Samuel Titan Jr., crítico literário e professor de literatura comparada da USP. O livro também venceu o Jabuti. Leia aqui.

Em 2014, o romance mais recente de Chico, O Irmão Alemão, chegou para consolidar “terreno próprio no campo da ficção”, de acordo com as palavras de Alcides Villaça. O crítico ressalta o humor no romance, e também “o domínio da frase, da oralidade, do ritmo do discurso, das remissões cultas e eruditas com ou sem efeito paródico”. O autor da resenha classifica o livro como “sofisticado”. O romance foi eleito como o melhor do ano pela APCA, e foi finalista dos outros grandes prêmios literários do País. Leia aqui a crítica e a matéria de Ubiratan Brasil.

Romancista agora estabelecido, Chico decidiu voltar para a música para fazer Caravanas. Mas não é exagero dizer que os leitores aguardam, ansiosos, seu próximo livro.

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