Para Charles Cosac, parceria com Amazon vai democratizar os livros da Cosac Naify
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Para Charles Cosac, parceria com Amazon vai democratizar os livros da Cosac Naify

Amazon vai vender com exclusividade o estoque da editora e pode ficar com os e-books de livros que não encontrarem um destino

Maria Fernanda Rodrigues

29 Janeiro 2016 | 21h15

cosac naify

(Foto: JF Diorio/Estadão)

Fundador da Cosac Naify, Charles Cosac, que anunciou em dezembro ao Estado que estava encerrando as atividades de sua editora, falou com exclusividade à coluna sobre a parceria que acaba de fechar com a Amazon. A livraria ficará responsável pela venda do estoque da editora e deve herdar os e-books dos títulos que não forem transferidos para outras editoras. A informação é o destaque da coluna Babel de 30 de janeiro, antecipada na sexta-feira, 29, no Portal Estadão.

Por que a parceria com a Amazon?
Foi mais ou menos pelo mesmo raciocínio que me guiou no desmembrar da editora. No que diz respeito à venda dos direitos dos best-sellers, eu optei, em detrimento da editora (porque ele poderia ter vendido os projetos gráficos), que eles se tornassem Penguin para que fossem democratizados. A editora pecava muito, era muito cenográfica, e isso dificultava a venda dos livros. As livrarias também sempre prejudicaram. Várias vezes tive o ímpeto de romper com elas e só vender pela Amazon. Embora os livros sejam considerados de luxo, o meu público sempre foi formado por universitários. Na época da Feira da USP as pessoas compravam pelo desconto. Agora não precisam mais esperar; vão poder comprar a qualquer hora na Amazon, que já dá bons descontos.

Haverá mais descontos? Podemos esperar uma queima de estoque?
De todos os clientes da editora, esse, o mais sui generis, o virtual, eu achei que seria mais correto. Não quero queimar estoque. Senti, nesse meu iniciar de encerramento de atividades, que as coisas vão à falência ou são vendidas. Não é o caso. Abri a editora como fechei. Há uma grande demanda pelo estoque e ele não será queimado. As pessoas sabem que esses livros não vão mais existir. Vão, mas em outros formatos. Não vou perpetuar a editora em editora alguma.

O que acontece com as outras livrarias que têm livros da Cosac em estoque?
Elas devem acertar as consignações ou devolver os livros. E então acaba a minha relação com livrarias.

Os digitais continuam sendo vendidos?
Os livros que não tiverem os direitos vendidos para outras editoras serão oferecidos pela Amazon. Ela tem interesse nesse catálogo, em alguns livros de literatura que têm uma curva baixa de vendas, mas que têm uma demanda formal todo ano. Para mim, será uma maravilha. Não fica aquela dor na consciência de ver o livro morrer. Tem livro que é para 250, 300 leitores por ano. Às vezes é impossível imprimir 1.500 e esperar 5 anos para vender.

Está dando muito trabalho fechar a editora?
(Risos). Um inferno. Um inferno. Ela ficou 10 vezes mais presente na minha vida. Eu pensei que eu estava me libertando dela. Quero terminar esses projetos em andamento e então terei fechado um ciclo. Não vou continuar trabalhando com editora e também não vou fazer dois livros por ano aqui em casa. Não vai ser esse o meu futuro. Tenho que ficar com a empresa aberta por mais dois anos por questões trabalhistas, estou escrevendo cartas para editoras no exterior para acertar o destino dos livros. Somos agora 11 pessoas, numa sala menor, que aluguei dia 4 de janeiro. A logística e o estoque continuam para atender a Amazon, que não tem como pegar tudo agora. Também não posso encerrar o departamento comercial, que tem que acertar todas as devoluções e consignações. Se você vir a lista do que tenho que fazer, vai começar a chorar. Parece que não vou aposentar nunca. Pelo menos agora parece que estou trabalhando com um objetivo certo: tenho certeza de que estou fechando a editora.

Você falou em Penguin no início. Todos os livros que ficarão com a Companhia das Letras sairão por esse selo?
Foi o que pediram. A Penguin é um fetiche meu. Li tudo na Penguin. É o formato ideal entre o livro e o livro digital. Tem portabilidade, preço competitivo. A ideia de ver esses livros tão importantes que fizemos disponibilizados dessa forma democrática, na Penguin ou na Amazon, é uma coisa que me dá prazer. É um final feliz.

Por que com a Amazon e não com as outras?
Ninguém tem a plataforma da Amazon. Ninguém tem o poder que eles têm. Com a Amazon, estou no Brasil. Com a Cultura, estaria no Sudeste. E a Saraiva nunca entendeu nosso catálogo. Não seria agora.

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