Margaret Atwood ganha Prêmio da Paz e fala sobre feminismo, abuso sexual e ‘O Conto da Aia’, em Frankfurt
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Margaret Atwood ganha Prêmio da Paz e fala sobre feminismo, abuso sexual e ‘O Conto da Aia’, em Frankfurt

Maria Fernanda Rodrigues

14 Outubro 2017 | 09h20

Por Ubiratan Brasil / FRANKFURT

Os cabelos prateados e o sorriso amistoso são o cartão de visita da escritora canadense Margaret Atwood que, no próximo mês, completa 78 anos. Mas, como são encaracoladas, as madeixas aumentam sua vantagem, revelando uma elegante senhora cheia de estilo, charme, energia e, principalmente, bom humor. Margaret ri de suas próprias piadas, o que as tornam ainda mais engraçadas. Foi o que tornou tão ruidosa a entrevista coletiva da qual participou na manhã de sábado, 14, na Feira do Livro de Frankfurt, que termina no domingo, 15.

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Margaret Atwood escreveu ‘O Conto da Aia’, grande sucesso hoje, nos anos 1980 (Foto: Arne Dedert/AP)

Ela veio à cidade para receber o Prêmio da Paz, conferido anualmente pela Associação de Livreiros Alemães. Desde que um de seus antigos livros, O Conto da Aia (Rocco), publicado em 1985, alcançou um novo e estrondoso vigor mundial ao inspirar a série de sucesso The Handmaid’s Tale, a escritora de olhos azuis voltou a ser uma celebridade. “Foi o primeiro produto em streaming a ganhar um Emmy”, comentou ela, em tom de orgulho, referindo-se ao prêmio americano tradicionalmente dedicado à TV.

Distópico, o romance tornou-se profético depois da eleição de Donald Trump, alçando Margaret a uma posição de profetisa. “O que o torna tão moderno é o retrato do totalitarismo americano”, comentou. De fato, O Conto da Aia é ambientado em uma república em um futuro próximo. Lá, não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes. Tampouco universidades. Extinguiu-se ainda a profissão de advogado porque ninguém tem direito a defesa – quem é considerado criminoso é fuzilado sumariamente e seu corpo é pendurado em praça pública, para que o apodrecimento escancarado sirva como exemplo e intimidação. Atos banais tornaram-se crimes, como cantar qualquer canção que contenha palavras proibidas pelo regime, como “liberdade”. Nesse Estado teocrático e totalitário, as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes. O nome dessa república é Gilead, mas já foi chamada de Estados Unidos da América.

“Quando escrevi essa história, eu vivia em Berlim, nos anos 1980. O muro ainda dividia a cidade e nada indicava alguma mudança – mal sabíamos que, cinco anos depois, ele seria derrubado”, observou. “Hoje, vivemos uma era de mudanças e revoltas. Escreveu-se muito sobre tiranias, autores como Tim Snyder (autor de Tirania: Vinte Lições do Século XX para o Presente, lançado pela Companhia das Letras) também se tornaram proféticos.” Margaret referiu-se tanto à crise espanhola provocada pela tentativa de separação da Catalunha como dos constantes tropeços do governo Trump. Aliás, a fim de explicar o atual sucesso de O Conto da Aia, a autora se lembrou da tentativa do presidente americano e de alguns políticos em controlar os direitos femininos – no romance, as mulheres de Gilead não têm direitos e ainda são divididas em categorias, cada qual com uma função muito específica no Estado. À personagem Offred, por exemplo, coube a categoria de aia, ou seja, sua função resume-se à procriação, uma vez que uma catástrofe nuclear tornou estéril um grande número de pessoas.

“O Canadá se tornou o país onde os americanos buscam refúgio sempre que estão inquietos. É o que acontece com as mulheres hoje”, disse Margaret que, perguntada sobre o cristianismo, lembrou que as religiões de todo tipo tentam impor restrições às mulheres. “O propósito de todas as crenças é a ter sempre muitos seguidores, daí a importância do papel feminino na procriação. Somente os Shakers (seita religiosa fundada no século VIII, na Inglaterra, e famosa por seu comportamento frenético durante os cultos) não tentaram controlar os corpos das mulheres porque adotaram órfãos. Mas eles desapareceram rapidamente, devido à escassez de órfãos”, disse ela, ecoando mais um tema de seu romance.

Margaret foi irônica ao comentar sobre um assunto atual, mas não relacionado ao livro: as acusações de abuso sexual do produtor de Hollywood Harvey Weinstein. “Felizmente ele não tem nada a ver com nossa série”, suspirou. “Situações em que mulheres jovens são exploradas por homens poderosos são infelizmente comuns já faz anos. O que permite esse tipo de abuso são dinheiro, poder e advogados. Ao menos, já estamos vendo mudanças e homens poderosos foram desafiados pelas redes sociais, que permitem a todos se expressarem publicamente, o que dá uma grande ressonância ao seu discurso.”

A escritora pontuou que os acusados de hoje são homens cujo comportamento era considerado, para alguns, “progressivo”. “O fato de serem desmascarados e tirados de seu pedestal é um alerta aos que têm esse tipo de comportamento”, observa. “E isso nos faz pensar que o ser humano é variado e o tratamento que cada um recebe não deve ter nada em comum com a maneira como Weinstein tratou aquelas mulheres.”

Uma das pioneiras no uso das redes sociais – já se divertia com o Twitter em 2008 –, Margaret Atwood elogia a ferramenta como palanque aberto a todas as vozes, mas sabe de seus limites. “As redes sociais têm três aspectos: um positivo, um negativo e um estúpido, que não foi pensado por ninguém pensou. O anonimato do Twitter libera o discurso político, mas também permite comportamentos detestáveis. Quanto ao aspecto estúpido, os robôs que me enviam mensagens sexuais são parte disso.”