Imaginação teórica – Laura Erber estreia no romance com ‘Esquilos de Pavlov’
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Imaginação teórica – Laura Erber estreia no romance com ‘Esquilos de Pavlov’

Maria Fernanda Rodrigues

15 Julho 2013 | 11h02

Laura Erber, por Marcelo Tabach/divulgação

MARIA FERNANDA RODRIGUES – O Estado de S.Paulo

Para uma das epígrafes de seu romance de estreia, a artista visual Laura Erber escolheu a seguinte frase de Katherine Mansfield: “Minha mente parecia um esquilo. Eu juntava e juntava coisas, e depois as escondia, para quando chegasse um longo inverno”. Ciprian Momolescu, o protagonista da obra em questão, tem sua variação: “Eu era um esquilo juntando coisas para um dia desistir de verdade e depois desistir de desistir”. Mais do que coincidência ou apropriação, a ideia remete à origem do romance e ao seu processo de escrita. Por algum tempo, a autora colecionou inquietações com relação ao seu ofício, citações, anedotas, restos de conversas, entrevistas, ensaios, fotos, cenas. Essa coleção seria a base de Esquilos de Pavlov, que chega às livrarias nesta semana.

Formada em Letras, com mestrado e doutorado, residências artísticas na França, Alemanha, Bélgica, Cuba, trabalhos expostos em centros como o MAM, no Rio, e a Fundação Miró, em Barcelona, Laura, 33 anos, publicou livros de poesia por editoras independentes e não se pressionava a escrever um romance. Mas, em 2010, fazendo pesquisas na Dinamarca para o doutorado, ocorreu a ela esse nome, Ciprian Momolescu. “Nas minhas poesias, já apareciam vozes que não eram mais a minha. Então surgiu a necessidade mesmo de criar esse personagem”, conta.


A decisão de escrever o romance, porém, não foi deliberada. Ela estava mais interessada em testar formas narrativas enquanto refletia sobre arte contemporânea. Não queria tratar do tema com a poesia ou num ensaio crítico. “Fui dando vida a esse narrador que deflagrou o processo criativo e outras questões que eu vinha pensando foram tragadas pela narrativa. O romance acabou sendo um lugar onde eu pude fazer uma articulação, uma mistura de colagens desses relatos que eu vinha acumulando”, explica.

Na história, Ciprian é um artista romeno que vaga pela Europa de residência artística em residência artística. Seu pai também experimentou a arte, mas seu contato com o Surrealismo foi frustrado e ele acabou sustentando a família com a história que criou, do ursinho metalúrgico que tem a chance de ganhar o mundo, mas volta sempre à rotina. Ao seu lado, o gato Li Po. Às vezes, uma mulher. No fundo, relações familiares precárias.

Com tanto material, mas não só por isso, o processo de escrita foi caótico, conta Laura. Foram três anos intensos. Quando começou a dar corpo à obra, seu filho tinha um ano e meio. No meio do caminho, nasceu sua filha. “Escrever um livro virou quase uma atividade clandestina no meu cotidiano. Era um pouco como escrever poesia no ônibus ou na fila do banco. Eu escrevia mentalmente certas frases, repetia em silêncio como um mantra e corria para anotar quando dava. Acho que isso acabou por dar um ritmo mais frenético e sincopado à coisa.” E, no meio disso tudo, ainda veio a Granta. Laura era dos nomes menos óbvios da edição com os melhores jovens autores brasileiros, lançada há um ano, e, além do prestígio, acabou ganhando o contrato para publicar seu Esquilos de Pavlov pela Alfaguara, que edita a revista.

Trata-se de um romance fora do comum, de formação e de experimentação, que se destaca pela linguagem espirituosa, pelo riso nervoso que desperta para então revelar o abismo da existência em construção daquele narrador que, já meio cinquentão, conta sua própria “ficção de origem”. Há, aqui e ali, fotografias e desenhos – um deles, feito pelo avô da autora -, que ilustram, ou às vezes não, os trechos que antecedem ou sucedem. “Quis manter uma tensão entre a aleatoriedade de algumas imagens e um nexo mais forte e jogar com essa expectativa do leitor que tem o impulso de pensar que existe uma associação afirmativa entre eles.”

A autora queria falar também do mal-estar da arte contemporânea do ponto de vista dos próprios artistas. “Tentei evitar o discurso crítico que tudo condena e o que acolhe qualquer coisa sem problematizar, de uma forma só celebratória e meio vazia.”

Que o leitor menos familiarizado com a cena artística não desanime ao avançar as páginas do breve romance. Muitos dos personagens e obras descritas são reais, e decifrá-los torna a leitura mais profunda. Outros são inventados. “Tentei ter um cuidado para que a coisa pudesse fluir para todos, mas estou trabalhando com história da arte contemporânea. E, quando leio um livro de história da arte, saio procurando as referências e não me sinto frustrada por não ter acesso a tudo”, justifica.

E, por falar em referências, vale conhecer, ou reler, a teoria do reflexo condicionado de Ivan Pavlov. Pavlov é também o sobrenome da personagem que faz amplo discurso sobre o estado da arte. Os cães, do primeiro Pavlov, ajudam a entender isso, e um pouco mais.

ESQUILOS DE PAVLOV
Autora: Laura Erber
Editora: Alfaguara
(176 págs., R$ 32,90)

RESENHA – Autora transforma Romênia no centro de sua imaginação
JOÃO CÉZAR DE CASTRO ROCHA
ESPECIAL PARA O ESTADO

Esquilos de Pavlov representa uma promissora estreia. Laura Erber lança mão de materiais diversos, explorando cruzamentos entre imagens e palavras, teorias e objetos, pesquisa e obra. Trata-se de gesto próximo à obra do poeta romeno Ghérasim Luca, estudado por Erber em ensaio da coleção Ciranda da Poesia (2012).

O romance dialoga com o filme Diário do Sertão (2003), por ela realizado e livremente inspirado na obra de Guimarães Rosa. A dicção de certas frases é bem roseana: “ninguém nem sabe que ele existe”. Elementos visuais atravessam a narrativa, pontuada por fotografias que não pretendem ilustrar o texto, porém enriquecer sua recepção.

Esquilos de Pavlov também interage com exposição recente da autora, Musa Sem Cabeça: a Fábula do Contemporâneo (Museu de Arte Moderna, 2013). Nela, o “Sr. MAM” recebe telegrama com inúmeros registros linguísticos: do prosaico ao lírico, do metódico ao aleatório. O diálogo se torna esboço em Bénédicte Vê o Mar (2013), escrito para ser lido em tablet ou computador. No livro, casualmente aparece o nome Draguta Momolescu, anunciando o universo do romance.

O narrador, Ciprian Momolescu, encontra-se em Paris há muitos anos e escreve, como ele diz, “minha ficção de origem”. Ficção que evoca o autoritarismo do regime de Nicolae Ceausescu (1918-1989). Recorde-se a abertura do romance: “O feto é uma propriedade de toda a sociedade. Dar à luz é um dever patriótico decisivo para o desenvolvimento da nação”.

De fato, as mulheres romenas eram periodicamente submetidas a exames ginecológicos, a fim de evitar possíveis abortos. Porém, a precariedade das condições econômicas deveria ter estimulado medidas de controle da natalidade. Paradoxos similares dominaram o cotidiano da era Ceausescu (1965-1989). O dramaturgo Matéi Visniec fundou boa parte de seu teatro numa reflexão sobre as consequências dessa estrutura contraditória, quase esquizofrênica. Já o narrador de Esquilos de Pavlov é um paradoxo ambulante: “Da minha mãe herdei o sono, do meu pai a incapacidade de dormir”.

Erber tanto alude aos desacertos do período de Ceausescu, quanto alveja impasses do conceito e, sobretudo, do circuito da arte contemporânea. O eixo do romance pode ser apreendido na frase-valise: “A maior parte das pessoas nunca teria visto arte se não conhecesse essa palavra”.

Ciprian se torna um futuro artista graças a um acaso objetivo que certamente agradaria a seu pai, Spiru, cujo obscuro passado surrealista intriga o narrador. Um emprego inesperado muda seu destino: “a biblioteca pública de Bucareste me empregou como secretário e larguei a faculdade”. Criativo, Ciprian joga com sistemas classificatórios, subvertendo regras de referência. Pronto: “uma curadora de Lubliana disse ‘estupendo, estupendo’ e foi fogo se alastrando”. Os experimentos do lúdico bibliotecário forjam uma nova identidade: artista.

Então, uma viagem sem fim principia, pois Ciprian recebe incontáveis bolsas em distintos países. O sistema é exposto no capítulo “O discurso de Ulrikka Pavlov”. E sem diplomacia alguma: os “artistas profissionais (…) recuperando-se de jet lags causados por seu infinito trânsito entre residências artísticas, bienais, feiras de arte, apresentações, palestras, vernissages e outros eventos sociais”. No caso de Ciprian, a sátira se completa num dado biográfico: seu pai pertencia à maçonaria, e, “graças à sua tentacular rede de contatos, o mundo das artes tem sido mais generoso comigo”.

Tentacular é o próprio romance, com sua miríade de alusões a protagonistas da cultura romena e a nomes icônicos da arte contemporânea. Não posso, aqui, abordar esse universo de correspondências. Levanto, porém, uma lebre: o leitor deve decifrar a referência à romancista croata Slavenka Drakulic.

Esquilos de Pavlov não se limita ao “sabor de um homem” – ou de uma cultura. Laura Erber, pelo contrário, se destaca pela ousadia com que transforma a Romênia – “entre modernismos periféricos e espelhos se refletindo” – no centro de sua imaginação.

Imaginação ficcional e teórica: o cruzamento decisivo que define seu projeto.

JOÃO CÉZAR DE CASTRO ROCHA É PROFESSOR DE LITERATURA COMPARADA DA UERJ, AUTOR DE MACHADO DE ASSIS: POR UMA POÉTICA DA EMULAÇÃO.