‘Ele não tinha o direito de morrer sem me ver casada e feliz’
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

‘Ele não tinha o direito de morrer sem me ver casada e feliz’

Você está acostumado a ler aqui sobre livros. Hoje, peço licença para contar a história da Beth*

Maria Fernanda Rodrigues

08 Março 2018 | 03h00

Foto: Arte/Estadão

Você está acostumado a ler sobre livros nesta coluna. Hoje, excepcionalmente, abro espaço para a história da Beth*. Ela é uma das mulheres vítimas de violência diariamente no Brasil. É uma das milhares de mulheres que ao buscar ajuda não encontram acolhida – se deparam com ainda mais violência.  Entender a dimensão da violência contra a mulher é urgente e diz respeito a todos – homens e mulheres.

O texto a seguir aborda violência contra a mulher.

Ele morreu dia desses. Eu devia ter ficado feliz, mas eu senti raiva, muita raiva. Ele não tinha o direito de morrer sem me ver casada e feliz. Eu tinha acabado de fazer essa promessa: em 2018, eu vou namorar e vou casar. Dito isso, fui parar no hospital. Quatro dias na UTI. Acho que isso não é mais para mim, já estou velha, não me enxergo bonita.

Me perguntaram por que eu não fui cuspir no defunto no velório. Por tudo o que ele me fez passar, eu tinha esse direito. Mas aí bate aquela culpa e fiquei com raiva de mim também. E se eu o tivesse aceitado? E se aquele amor todo fosse verdadeiro? É um misto de sentimento. Voltou aquele filme, uma história que começou quando eu tinha 14 anos, que destruiu a minha vida e que agora, 48 anos depois, ainda me corrói. Ele foi meu primeiro namorado.

E o meu primeiro namorado acabou com a minha vida, destruiu meu sonho de adolescente. Me enlouqueceu. Tentou me estuprar. E por causa dele eu tentei me matar. Três vezes.

Nós éramos muito pobres, vivíamos numa casa improvisada onde antes tinha sido um galinheiro. Meu pai era do exército e um dia foi visitar um amigo na cadeia e foi preso na saída. Era um revolucionário, mais interessado no destino do País do que na própria família, e se tornou mais um desaparecido político da ditadura militar. Um revolucionário, mas um revolucionário que dizia que no Norte, de onde vinha, mulher apanhava de bunda limpa. E ele batia na minha mãe. Ela reclamava, mas teve 14 filhos com ele sem contar os abortos. Eu tinha 8 anos quando ele desapareceu e passei a minha vida esperando encontrá-lo na rua.

E eu tinha 13 anos quando Paulo, aquele moço bonito que namorava uma amiga minha, apareceu. Um tempo depois, eu já com 14 para 15, minha mãe veio dizer que eu estava namorando porque ele tinha gostado de mim também. Até namoramos mesmo, mas era complicado. Ele dizia que gostava de mim, mas eu sabia que ele saía com outras. Eu tentava terminar e ele chorava dizendo que não sabia como ia sobreviver. Eu acabava voltando, e terminando de novo.

Era um inferno. Eu sempre tinha a sensação de que alguém me olhava na rua. Era ele me vigiando. Enlouquecedor. Ele começou a armar com a minha mãe. Por exemplo, nós íamos ao cinema e eu queria usar uma saia linda que ele tinha me dado, mas minha mãe disse que estava suja e me falou para usar calça jeans mesmo. Ele confirmou que tinha pedido para ela fazer isso porque não queria que outros olhassem para as minhas pernas.

Até então, eu nunca tinha me atinado que era uma moça bonita.

Ao mesmo tempo em que eu começava a me revoltar com suas tentativas de controlar a minha vida, ele me deu uma aliança de compromisso. Todo mundo ficou feliz porque, como diziam, moça de família tinha que casar.

Agora essa história não me machuca mais, mas aquela foi a pior semana da minha vida. Uma amiga usava uma blusa preta com transparência, ele bebeu muito, ficou olhando. Terminei tudo, mas ele vinha na minha casa e não ia embora, chorava. Tirei a aliança e ouvi dele que se não fosse para casar com ele eu não me casaria com ninguém.

Dito e feito.

As perseguições continuaram e aconteceu uma coisa muito estranha. Fui visitar minha irmã no Rio, durante as férias, para espairecer, e chegando lá recebo uma carta da minha mãe dizendo que se eu não me casasse com ele ela não me aceitaria mais como filha. Ela era espírita e começou a achar que ele era a reencarnação de seu primeiro marido. Quando eu voltei de viagem, ele era o homem da casa, embora a casa tivesse sido destruída pelo fogo das velas que eles acenderam para os santos.

Sim, isso mesmo, minha mãe estava vivendo maritalmente com o meu ex-namorado. Ele tinha 18. Ela, 54.

Fui internada pela primeira vez no que chamávamos naquela época de sanatório. Minha mãe ficou com o dinheiro que recebi do meu trabalho e reconstruiu a casa. Seis meses depois, voltei para lá, para um quarto separado que construíram para mim.

Eu só chorava.

Imagine a cena: minha mãe deitada na cama em um quarto, ele saindo do banho só de toalha e eu passando. Tinha um espelho. Ele tira a toalha e me manda ver o que estava perdendo. Tinha uma faca na mesa e minha vontade era de matá-lo. E minha mãe quieta.

Tomei todos os remédios da casa. Voltei para o hospital e o médico disse que eu não poderia voltar porque o problema estava lá. Eu não tinha para onde ir, meus irmãos não quiseram a responsabilidade de me ajudar. Para todos eles, alguém que rejeita um casamento é doente mental. Esse era o meu rótulo.

Acabei indo morar na casa da minha irmã, e meu cunhado passava a mão em mim. Meu dinheiro ia para a casa dela. Ficava um pouco lá e um pouco na minha mãe. E chorava, chorava. Comecei a fazer análise.

Eu não quis casar, eu deixei isso tudo acontecer. Era isso o que diziam. A culpa era toda minha. Fiquei falada, ninguém queria me namorar. Foram me mostrando que eu tinha uma doença mental. E a gente aprende a ser doente.

Mas fui tocando a minha vida. Trabalhei em casa de família, fui babá. Um dia fico sabendo que minha mãe entrou em desespero porque Paulo queria se separar dela. Ele me amava e era comigo que ele queria ficar. Foi isso o que ela me disse.

Costumo dizer que ou eu sou louca ou eles é que são.

Minha cabeça deu um nó. Ele veio de novo falar comigo e, mais  uma vez, eu disse não.

Para evitar que eu voltasse para casa na minha folga, minha patroa na época falou para eu ir para o apartamento dela na Guarujá. E lá eu conheci um salva-vidas.

Não foi na melhor das situações, é preciso dizer. Aquela não era a primeira vez que eu tentava o suicídio. Fiz tudo o que precisava fazer para as crianças e entrei no mar. Não aguentava mais, ia me afogar. E ele me socorreu.

Casado, claro. E ele foi o pai da minha primeira filha.

Voltei com a bebê para a antiga casa da família, afinal, tinha ajudado a pagar o terreno e a construção. Eu sabia que ele estava ali me vigiando. Um dia entrou em casa para ter certeza de como as coisas estavam. Peguei a arma do pai da minha filha e ia dar um tiro. Não dei, claro. Ele continuava rondando. À noite, fazia barulho no terreno, arranhava a porta, e eu não conseguia dormir. Morria de medo e a depressão se instalou.

Oito anos depois, nasceu meu menino, filho de outro pai – que era meio biruta e não ficamos juntos. Ele aparecia de vez em quando, quando queria ter relações comigo. E eu ainda tive que ouvir do meu irmão que era direito dele, já que pagava pensão. Pagava, sim, mas era para o filho. E eu não era prostituta para aceitar essa situação.

Brinco que um dia Deus perguntou: “Quem quer ter problema?” E eu levantei as duas mãos e os pés. Mas a vida seguiu com seus altos e baixos, consegui criar meus filhos. E consegui e consigo ajudar muitas mulheres, e, assim, acabo me ajudando também. Agora eu preciso transpor a barreira mais difícil, que é aceitar ser gostada e aceitar que eu posso ser feliz com alguém. Isso ainda vai levar um tempo, mas não vou deixar de trabalhar isso. No domingo mesmo eu até tingi meu cabelo.

Apesar disso tudo, ele sempre esteve ali, como uma sombra. Como em fevereiro, numa missa, quando ele andou pela igreja me olhando. Voltei para o hospital, a pressão subiu. Tive um princípio de enfarte e de AVC. De novo. Em 2004 eu tive um AVC. É duro, mas tomo remédio para dormir e para acordar.

O que eu sofri foi violência psicológica, que não é visível como a violência física, mas também é arrasadora. Eu tive medo de morrer. E o medo que eu tive e ainda tenho é de ninguém gostar de mim.

Não que ele não tenha tentado ser violento comigo. Tentava sim, mas eu não aceitava. Quando ele tentou me estuprar, eu senti um nojo muito grande dele, que parecia um bicho, e de mim, que não conseguia explicar que eu não queria. E eu pensava: se a pessoa diz que quer me dar amor e carinho, como tem coragem de fazer isso comigo?

Caí na besteira de falar pra minha mãe que eu tinha nojo de ficar perto dele e o que ela fez? Começou a falar que eu era lésbica. Sapatão, que era a palavra da época. E contou para os meus irmãos. Eu tinha mesmo nojo, tinha ânsia de vômito. Ele se aproximava, vinha com essa coisa de ‘eu te amo’ e tentava me beijar. Eu dizia que não queria e ele dizia que queria por nós dois. Tentava me beijar e eu sentia ânsia, a boca enchia de água. Você não tem para onde correr.

Mas eu fui embora, fui trabalhar em casa de família, morei em outras cidades. E não é que minha mãe e ele me mandavam cartas?! Minha mãe foi atrás, de mala e cuia. Depois, eu precisei fazer uma cirurgia e voltamos. E a coisa foi piorando. Ela ficou doente e como ninguém queria cuidar dela, eu cuidei. Até o fim. Separei a minha mãe da mulher. Adotei várias mães ao longo da vida para ter algum carinho. Não tenho o direito de julgá-la e cuidei dela sim, até o último minuto. Ela pediu perdão, mas porque virou evangélica.

E ela também sofreu violência. Apanhou do meu avô e do meu pai. Minha irmã sofre violência daquele marido que costumava passar a mão em mim, mas não fala. A minha história você acaba de ler. A minha filha também passou por coisas horrorosas e me culpei muito. Só agora consegui conversar com ela e ela deixou claro que eu cuidei dela e que ela já superou tudo o que passou. Meu irmão era violentíssimo e batia na mulher e nos filhos. No velório dele, minha cunhada se sentia culpada. É um ciclo. E nem todas as mulheres têm coragem se denunciar, de ir embora. Muitas chegam a perder a fé em Deus.

Falo para a minha filha e para outras mulheres mais novas que apesar dos pesares essa é a melhor época da história porque a gente pode falar. Porque a gente tem com quem falar.

Fiz curso de promotora legal, sou Agente Bem Querer. Tenho meu ateliê de artesanato. Quero ajudar outras mulheres vítimas de violência a ter uma renda para poder sair dessa situação. Acho que de uma certa forma eu consegui superar, com a ajuda de muita análise, mas de vez em quando dói. É como uma ferida.

Se não fosse uma ferida, a morte dele não tinha mexido comigo. Eu cheguei mesmo a pensar que se eu tivesse ficado com ele eu não teria passado por isso tudo o que passei.

Sofrer, todos vamos. Mas precisamos saber sofrer, precisamos saber onde procurar ajuda. Foi isso o que ensinei para os meus filhos.

Se eu gostei do Paulo? Uma vez, na adolescência. Só. E lá se vai quase meio século.

Entender o tamanho do problema é urgente e diz respeito a todos nós. Informe-se, apoie e denuncie. Outras colunistas do Estadão também cederam seus espaços. Leia mais histórias aqui. #DeUmaVozPorTodas

*O nome foi trocado para preservar a identidade da vítima.