Condephaat volta atrás e permite construção no entorno do Teatro Oficina

João Wady Cury

23 Outubro 2017 | 20h23

Órgão estadual deu ganho de causa ao Grupo Silvio Santos nesta segunda, 23, que precisará também do aval do Iphan e do Conpresp para construir duas torres residenciais de 100 metros no entorno do teatro

 

Em uma sessão conturbada, com a presença do escritor Mario de Andrade, na pele do ator Paschoal da Conceição, cantorias e gritos de ‘fascistas’, 15 conselheiros do Condephaat deram vitória à empresa Sisan, do apresentador e empresário Silvio Santos, para a construção de três torres residenciais de 100 metros de altura ao lado do Teatro Oficina, no Bexiga, no bairro da Bela Vista. Apenas sete conselheiros foram contra. A decisão levou um clima de velório ao teatro do diretor José Celso Martinez Corrêa, que no último sábado comemorava os 50 anos da primeira montagem da peça O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, com a estreia da remontagem com o mesmo Renato Borghi no papel de Abelardo no Sesc Pinheiros. Mas a reação foi rápida: desde o início desta segunda-feira artistas mobilizaram-se no próprio teatro para definir os próximos passos.

Encerrada a votação todos os conselheiros do Condephaat correram para a saída, como se fugissem da turba que ocupava o auditório, cerca de 40 pessoas que passaram, com o resultado, a se manifestar contrárias à decisão. O presidente do órgão, Carlos Augusto Mattei Faggin, empossado este ano, não votou e foi questionado pelos manifestantes.

A decisão contraria a determinação do próprio órgão estadual que há um ano havia rejeitado o pedido do dono do SBT. Para construir as torres, a Sisan, agora, precisa ‘destombar’ o Oficina em duas outras instâncias: a federal, no Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e a municipal, no Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental). Toda vez que um imóvel é tombado por órgãos de proteção ao patrimônio o seu entorno também passa a ser preservado. O que o Condephaat fez no caso do Teatro Oficina foi justamente isso: voltou atrás no que diz respeito à proteção do entorno do teatro, permitindo a construção de suas torres residenciais. A alegação dos representantes do teatro é que a proximidade das edificações sufocariam o teatro e obstruiriam a vista do janelão lateral do Oficina, projetado por Lina Bo Bardi e Edson Elito. A área ocupada pelo Bexiga responde por um terço dos tombamentos da cidade de São Paulo.

O advogado do Teatro Oficina, Márcio Sotelo Felippe, do escritório Teixeira, Ferreira e Serrano Advogados, disse que está estudando medidas possíveis que possam reverter a decisão. “A Sisan ultrapassou um obstáculo, mas ainda há dois pela frente e nós vamos brigar”, afirmou o advogado, referindo-se à reversão do tombamento do teatro no Conpresp e no Iphan. “Com todo respeito ao Condephaat, o relator do processo, Fabio André Uema, desconsiderou regras específicas do próprio tombamento feito pelo órgão”, disse Sotelo, que não descarta medidas judiciais caso o Grupo Silvio Santos vença nas outras instâncias.

Em agosto, como adiantou o ESTADO, logo após uma tentativa de conciliação de interesses entre o Grupo Silvio Santos e José Celso Martinez Correa, promovida pela prefeitura, o diretor do Teatro Oficina denunciou o apresentador do SBT em seu blog por oferecer a ele R$ 5 milhões para que desistisse de brigar pelo terreno. A proposta, segundo Martinez Corrêa, foi feita durante uma ligação telefônica e imediatamente recusada.

 

(Colaborou Fabio Leite)