Palco da vida e da morte

Palco da vida e da morte

João Wady Cury

13 Fevereiro 2018 | 08h54

Grito de vida, lamento de morte, não importa. A chuva de confete e serpentina começou às toneladas e se esta não for a sua marchinha, corra. É o melhor que poderá fazer para não ser abalroado por uma colombina desgovernada, um pierrô trôpego do que considera vida. Aceite, tudo é teatro. E este, como bom anfitrião, sempre deu as boas vindas a Momo.

Senão, apelemos aos deuses gregos na poesia dramática de Vinicius de Moraes. A peça é uma tragédia carioca e se passa no morro: Orfeu da Conceição. Foi, como tudo o que o poeta fazia, um portal para o infinito. Em Orfeu se deu o primeiro encontro de vida e arte com Tom Jobim – e o resto da história todos conhecem. Tom musicou o espetáculo para a estreia em 1956 e depois as músicas viraram disco. Os cenários eram de Oscar Niemeyer, com cartazes de Carlos Scliar e Djanira. E ainda assim não bastava, era preciso mais assim como o carnaval precisa de quatro dias. Atores negros ganharam o palco do Municipal do Rio de Janeiro, uma raridade, quase petulância. Com todo esse ineditismo ainda veio o maior deles, agora em tela grande: Marcel Camus filma a história de Vinicius – ele rejeitou o resultado do filme – e leva a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar com o rebatizado Orfeu Negro. Vinicius era um bruxo, não tinha pra ninguém.

A história do bicheiro de Madureira ficou famosa pelas mãos de Nelson Rodrigues em Boca de Ouro e a montagem de Gabriel Villela ano passado cobria de confete e serpentina os atores. Outra, de boa lembrança: a estreia do ator Marcos Caruso no teatro se deu justamente na peça Rei Momo, texto e direção de Cesar Vieira, no Teatro Popular União e Olho Vivo. Mas carnaval de verdade era o do ator Sergio Britto, que todos os anos reunia amigos em sua casa, no Rio, durante a festa, para maratonas de música e filmes. Sim, um movimento anticarnavalesco que virou carnaval no palco. Os encontros inspiraram Baile de Máscaras, peça de Mauro Rasi, com Cleyde Yáconis e Lilia Cabral no elenco.

Tem mais carnaval no teatro, como na peça de Dias Gomes e Ferreira Gullar, Dr. Getúlio: Sua Vida e Sua Glória, em que a vida do ditador corria paralela ao momento em que uma escola de samba o escolhe como tema do desfile. Ou ainda sobre a volta do próprio GV em 1950 na trama criada por Oswaldo Mendes, Um Tiro no Coração, embalada por Walderez de Barros como vedete, entoando alalaô para os viventes.


Mas a passarela que representa para atrizes e atores o teatro de São Paulo não é o sambódromo. Está na Bela Vista e foi criada no Oficina pelas mãos de dois arquitetos, Lina Bo Bardi e Edson Elito, palco de 50 metros como corredor de passagem. É ali que a festa da vida e da morte em forma de poesia acontece todos os dias, com ou sem carnaval.

 

Confete. Cena de ‘Boca de Ouro’, de Nelson Rodrigues, dirigida por Villela. Foto: João Caldas Fº