Lá vem polêmica

Lá vem polêmica

João Wady Cury

01 Março 2018 | 08h41

Elenco da peça ‘O Gosto da Própria Carne’. Foto: João Caldas

 

 

O diretor Roberto Lage vai repetir uma figurinha. Chama-se O Gosto da Própria Carne, peça do dramaturgo norte-americano Albert Innaurato. Lage dirigiu o mesmo texto nos anos 80. Claro, quando o planeta parecia habitado por outros seres, sem julgamento de valor nem pra cá, nem pra lá. Hoje, o impacto vai ser outro e certamente haverá grita. O texto de Innaurato retrata a violência de uma época, quase descontrole de uma família que circula entre o degenerado e o depravado: machismo, violência contra a mulher – ainda que a própria – e agressões e ofensas contra o filho glutão. Sim, ele não para de comer durante a peça toda, enquanto sua família não cessa a violência generalizada. Pancadaria pouca é bobagem. Essa montagem marca a volta aos palcos, depois de 20 anos, da atriz Rita Malot. O elenco se completa com Nelson Peres, Roberson Lima, Walmir Santana e Patrícia Barros (foto). A estreia está marcada para o Teatro Ágora no dia 9 de março. O grupo tem ainda o diretor e ator Mário Bortolotto como autor da trilha da peça – é uma garantia de fortes emoções. Musicais, claro.

 

E NÃO SERÁ POUCA

Vamos ao massacre. Innaurato estudou teatro em Yale e teve como colegas de classe gente supimpa. Bom, duas delas, em especial, para aguçar a curiosidade: Meryl Streep e Sigourney Weaver. Fez sucesso com sua primeira peça, Gemini, e depois vieram vários prêmios pelas montagens seguintes. Morreu ano passado, aos 70, em sua casa. O Gosto da Própria Carne, em inglês, tem nome menos poético – The Transfiguration of Benno Blimpie – mas denuncia a influência católica de sua formação. Nunca foi muito encenado no Brasil, pelo contrário, ainda que seu olhar seja universal: o microcosmo familiar, grupos de amigos, não importa. Innaurato mergulha fundo nas relações e no limite do ser humano, se é que há algum, além da morte. “É um autor que vai na veia das relações sem se preocupar com esses limites”, diz Lage. “E aí está a beleza e atualidade do texto.”