Boca Maldita, o rei e o terceiro sinal

Boca Maldita, o rei e o terceiro sinal

João Wady Cury

08 Maio 2018 | 14h21

O ator e diretor baiano Ricardo Bittencourt Foto: Sora Maia

 

Quando o ator e diretor baiano, radicado em São Paulo, Ricardo Bittencourt voltar à cena na próxima segunda, 7, com Boca a Boca: Um Solo para Gregório, estará com três peças em cartaz, duas como ator (esta e O Rei da Vela, no elenco do Oficina) e uma como diretor, em Terceiro Sinal, com a atriz Bete Coelho. Três projetos com voz própria, mas a única realmente particular é sobre o soteropolitano e barroco de carteirinha Gregório de Matos, o Boca do Inferno. Na encenação, Bittencourt leva em três segundas-feiras o lirismo de Matos em forma de 40 poemas na Biblioteca Mário de Andrade.

 

 

Homens-fósseis da peça ‘Kansas’. Foto: Marcelo Uchôa.

 

O MEDO, ESSE DANADO 

Boca do Inferno, espelho de uma época, tinha uma espada fincada em seu peito capaz de traduzir o sentimento que assombra e cruza nossas vidas: o medo, esse danado. Fontes ricas sobre as aflições incontidas dos humanos, de Delumeau, em A História do Medo no Ocidente, a Bauman, com Medo Líquido, tentam dar conta do tema, mas não o encerram. Claro, assunto não falta para alimentar qualquer conversa, mas no palco a história é outra. Talvez seguindo essa lógica, a diretora e dramaturga Gabriela Mellão decidiu encarar o tema quando caiu em seu colo uma pesquisa sobre o medo nos dias de hoje. A partir das oitiva e juntando textos seus, colaborações dos atores e atrizes e também inspirados em obras de outros dramaturgos, Gabriela criou Kansas, peça que estreia dia 30 no Teatro Sérgio Cardoso. Trata-se de um trabalho que caminha há um ano, às vezes rápido, noutras lentamente, e que teve troca de elenco, o que já retrata a dificuldade de construir a narrativa de forma relevante. Mas isso é teatro, haja coragem, e certamente parte dela vem da gente experiente do elenco para dar conta do medo maior, encalacrar essa voz que quer e precisa sair. Estão ali Ester Lacava, Erika Puga, Alexandre Stockler, Clovys Tôrres e Plínio Soares. Agora, por que Kansas? A inspiração vem de uma frase de O Mágico de Oz, “We’re not in Kansas anymore”, referência ao paraíso que não temos mais. Angústia pura.