Parlapatões mostram o seu ‘O Rei da Vela’

Parlapatões mostram o seu ‘O Rei da Vela’

João Wady Cury

25 Março 2018 | 21h34

Uma das peças mais simbólicas do teatro brasileiro vai parar na Praça Roosevelt. O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, depois de marcar a história do Teatro Oficina desde a primeira encenação, em 1967, está sendo montada pelo grupo Parlapatões e tem estreia marcada para 13 de abril, no Sesc Santana. Depois segue para nova temporada na sede do grupo. Fundador dos Parlapatões com Raul Barretto, o diretor Hugo Possolo é também protagonista, palhaço bufão, e fala sobre o seu olhar para a peça.

 

O Rei da Vela sempre foi propriedade afetiva do Oficina. Por que decidiu montar?

Quando tinha 11 anos, li O Rei da Vela. Com o tempo, e sempre ouvindo que os Parlapatões têm espírito anárquico, como os grupos Oficina e Ornitorrinco. Fiz uma adaptação em 1996 para uma turma de formandos da Unicamp. Viajamos para a Espanha e Portugal com a peça. E aquilo ficou na minha cabeça. Queria fazer uma montagem com o meu grupo.

 

Mas um palhaço fazendo O Rei da Vela?

Nada mais justo. Oswald criou o protagonista, Abelardo I em homenagem ao grande palhaço Piolin, Abelardo Silva (1897-1973). E colocou nele os ingredientes de um palhaço, o Piolin, e de um bufão – o próprio Oswald; era assim que agia no meio da intelectualidade. O palhaço trabalha no eixo da alegria, o bufão, no da dor.

 

Quando decidiu montar a peça?

Caiu a ficha em 2014, com a Copa do Mundo no Brasil. E foi antes mesmo do 7 a 1 contra a Alemanha. O teatro é muito sensível ao público e logo percebi que os teatros começavam a ficar vazios. A conclusão foi imediata: a crise está aí, mesmo com a festa toda em torno da Copa. Vai piorar nos próximos dois anos, e a crise financeira levou à crise institucional e política do País nos dois anos seguintes. Mantive por quatro anos os direitos garantidos.

 

O que você quer falar com O Rei da Vela?

A grande potência da peça é que Oswald revela uma gigantesca falta de humanidade da sociedade. Como diz Oswald, continuamos em um país semicolonial, medieval. Minha montagem encara a incapacidade da classe média de ver a crise. Quando o momento é de bonança, ela sonha em ser elite e se alia. Quando o problema vem para ela, faz papel de oprimido. E a classe média está desnorteada com a fissura política que vivemos hoje.

 

José Celso, do Oficina, gostou da ideia da peça?

Curtiu muito, falou que todo mundo tem que montar. Até porque agora o texto cairá em domínio público. Para mim foi um presente ver a montagem do Zé Celso no ano passado. Depois pensei: “Que bom que nossa montagem ficou para depois. Me libertei para criar a minha encenação com o olhar dos Parlapatões”.

 

O Oficina inspirou o tropicalismo. E os Parlapatões?

Nossa montagem tem muita música, Tropicalista, claro. É teatro musicado. Teremos uma banda ao vivo.

 

Elenco grande, não?

Sim, é uma exceção. Os elencos grandes sumiram do teatro brasileiro em função de baratear as produções. Nossas montagens são assim, como foi O Papa e a Bruxa, de Dario Fo, e O Burguês Fidalgo, de Molière, sempre com elencos grandes com os quais viajamos o Brasil.

 

O ator e diretor Hugo Possolo na pele de Abelardo I. Foto: André Stefano