Yuja Wang: um constrangimento

Alvaro Siviero

27 Setembro 2011 | 12h13

A passagem de Yuja Wang por São Paulo merece dois adjetivos: estarrecedora, inesquecível. Dona de uma técnica precisa, limpa, a pianista encantou. Jogou pó de pirilim-pim-pim na platéia e hipnotizou a Sala SP. Sua arte emudeceu os detentores do conhecimento do bem e do mal. Um momento memorável.  Sem dúvida, a nova diva do piano mundial. A avalanche artística, que dava direito a cascatas de notas jorradas do piano em velocidade estonteante, encontrou no público, infelizmente, uma atitude inesperada.

Como de costume, nos avisos dados antes do início dos concertos, uma gravação pedia a todos os presentes que desligassem seus celulares.  Em seu recital de despedida de terras brasileiras, o público preferiu desobedecer ao pedido. E foi deselegante. Após apresentar-se por três dias consecutivos interpretando o colossal Concerto n.3 para piano e orquestra de Prokofiev, até por respeito, o público deveria ter sido mais educado. Na primeira parte do programa, por quatro vezes, celulares dispararam, furiosamente, com toques de chamada em estilo cavalaria. Parecia proposital. Como não poderia ser diferente, a pianista se desconcentrou. E eu me questionava: “será que as pessoas não ouviram o pedido realizado pela sala?”

De minha poltrona, a distração também começou tomar contar de mim. Muitos dos presentes preferiram deixar seus aparelhos no modo silencioso. Na primeira fileira via-se um senhor enviando torpedos. Uma senhora ao meu lado checava seu facebook. Durante a execução dos Etude-Tableaux Op.39, de Rachmaninov, o festival de tosse tomou conta. Houve momentos em que as pessoas começaram a se entreolhar perplexas: não acreditavam muito no que estava ocorrendo. Foi aí que comecei a me convencer de que, talvez, tudo fosse proposital mesmo. Somente espero que, baseado no preparo e educação que verifiquei em alguns dos presentes, eles não tenham pensado que as tosses fizessem parte da obra…  Imaginem vocês se, no momento 2:32 do vídeo acima, um festival de tosses ou um celular começasse a disparar… Pois bem, foi exatamente isso o que ocorreu. E a pianista fechou o programa precisamente com essa obra.


Início da segunda parte. Um novo aviso é gentilmente veiculado na sala, pedindo aos presentes que encarecidamente desliguem seus celulares. Desta vez, o pedido também fez referência aos celulares que estavam no modo silencioso. De fato, a luz emitida pelos diversos aparelhos comprometia a penumbra da sala… Foi um aviso claro. Segundos antes de iniciar o último movimento da Sonata n.6 de Prokofiev (assista ao vídeo acima), Yuja Wang colocou-se em posição de ataque: seria a finalização da catarse grega daquela inesquecível tarde. É nesse momento que, agora na fileira anterior à minha, o celular de uma senhora dispara dentro de sua bolsa. Dopada, ou distraída, ou as duas coisas ao mesmo tempo, não sei, ela não tomava providência alguma. Seu olhar estava fixo no teto da sala, como se aquilo não fosse com ela, como se o aparelho não fosse dela. A pianista aguardou. Diversos segundos depois o celular foi desligado. Foi aí que Wang se reconcentrou para interpretar uma das páginas mais ousadas do repertório.  Durante a execução, os parentes da distraída senhora a recriminavam, com cochichos intermináveis. Que lástima! Enquanto isso, à minha direita, outra senhora ajeitava sua echarpe de peles enquanto admirava o anel de brilhantes que usava.

O recital acabou. A artista foi ovacionada. Enquanto aplausos intermináveis pediam mais música – entre outras obras Wang se entregou à Toccata, de Prokofiev, de modo sobrenatural – diversas pessoas se retiravam da sala, sem nenhum tipo de escrúpulo. Senti vergonha alheia.

Quando voltava para minha casa tomei consciência de que tudo aquilo que havia ocorrido não era maldade humana. Era despreparo. O homem moderno perdeu a capacidade de ouvir, de abrir-se ao outro, de sair de si mesmo em busca de tudo aquilo que não é ele mesmo.

A música de concerto é música, como qualquer outra. Tem qualidade. Tem muita qualidade. O que a diferencia dos outros gêneros é a forma de escuta: pede silêncio, atenção. E é daí que vem o enriquecimento pessoal. Fica a lição.

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