Um violinista brasileiro caminha pelo mundo a serviço da paz

Alvaro Siviero

13 Fevereiro 2012 | 22h42

O violinista brasileiro Pablo de León (acima com Valery Gergiev, em Moscou), spalla da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, é o único brasileiro que recebeu a honraria de ser, desde 2003, músico convidado a integrar a WOP (World Orchestra for Peace – www.worldorchestraforpeace.com), fundada em 1995 pelo maestro Sir Georg Solti e com a finalidade de reafirmar, nas próprias palavras do fundador, “ a força sem igual da música como embaixadora da paz”.  Formada por spallas e chefes de naipes de orquestras do mundo inteiro – London Symphony, Filarmônicas de Berlim, Viena, Israel, Tonhalle, Buenos Aires, entre muitas outras – os músicos se unem, como limalhas de ferro, atraídas pelo mesmo ímã: a Música.  Após a WOP realizar 3 concertos desde sua fundação, sempre sob a batuta do renomado maestro Valery Gergiev, o único violinista representante brasileiro  foi convidado a integrar o grupo. Apresentou-se na Rússia, São Petersburgo, Alemanha, China, Holanda, Hungria, Bélgica, Israel, Polônia, Suécia, Inglaterra, Áustria, Emirados Árabes… Neste ano, nos dias 19 e 21 de outubro, a WOP apresenta-se no Carnegie Hall (NY) e no Symphony Center (Chicago). Um time de feras. E a platéia se emociona.

Abaixo, um trecho de descontraída conversa com o violinista brasileiro.

Como surgiu o convite?

Charles Kaye, o manager da orquestra, entrou em contato comigo após referências internacionais bastante positivas que fizeram sobre o meu trabalho. Fiquei muito feliz. Devo também à Sabine Lovatelli, entre outras pessoas, meu agradecimento. Mas confesso que não esperava uma surpresa dessas. Lembro-me agora de um ensaio relâmpago em que o quinteto de cordas da WOP, da qual eu fazia parte, registraria a execução de uma obra que serviria de chamada para o concerto da WOP do dia seguinte, no Royal Albert Hall, em Londres. Era nossa primeira leitura em conjunto da obra. Eu dividia a estante de violinos com o spalla da Filarmônica de Viena. Quando acabamos a leitura da obra, nos comunicaram que a gravação já havia sido realizada…Entre espanto e sorrisos, os membros do quinteto percebemos que a gravação, de fato, havia ficado muito boa. E a leitura do ensaio transformou-se na versão definitiva. Essas são, entre outros muitos exemplos, as agradáveis surpresas que a música nos prepara, e ao qual eu me referia anteriormente.

Esta orquestra é formada somente por spallas e chefes de naipe. Você acumula a experiência de ser spalla de diversas orquestras. O que significa, na prática, carregar essa posição?

Responsabilidade. O spalla, além de ter como sua função a necessidade de contribuir artisticamente com o grupo, também é um canal administrativo entre o maestro e a orquestra. Explico-me: uma orquestra guarda diversos paralelos com uma empresa no que se refere à administração de seus desafios internos. Não foram poucas as vezes que, tanto músicos quanto maestros, me procuraram para dividir preocupações ou pontos de vista. Minha função, além de requerer competência técnica, exige competência humana, pessoal. Mas isso ocorre também em outras profissões, não é verdade?

Você poderia explicar melhor o que seria exatamente a competência pessoal ao qual você se refere?

É saber exercer a liderança, mas não através do poder. O poder não forma o líder. Muitas das dificuldades administrativas surgem aqui: quando quem tem poder não tem as qualidades humanas e pessoais para a função. Quando você é respeitado – e aqui reforço que a competência musical e técnica são fundamentais – você consegue conduzir. Ser spalla é um serviço, não um pedestal, e muito menos uma fonte de auto-afirmação. Um spalla deve estar disposto a aprender até mesmo daqueles que tem um cargo inferior ao seu dentro da orquestra. Não nos esqueçamos que, em uma orquestra, todos somos músicos. Todos somos iguais. A orquestra é um grande organismo vivo onde todas as partes do corpo são importantes. E é neste momento que surge a flexibilidade, conseqüência de uma atitude que não pode e nem deve ser egocentrada.

O que mais lhe chamou a atenção na WOP?

O quanto o Brasil poderia crescer culturalmente.  A música erudita no Brasil não tem tradição. É como o futebol no Japão. Há hoje, no Brasil, poucas escolas de música, a educação nas escolas brasileiras não leva em conta esse importante investimento cultural e os músicos não gozam de incentivos. Na WOP, por exemplo, divido lado a lado a cadeira com gente que nunca pagou para ter aulas de seu instrumento. Insisto: nunca. Entre os músicos da WOP há 4 ou 5 Stradivarius sendo utilizados, além de Guarnerius, entre outros instrumentos. Esse investimento, feito por bancos e pessoas de posse, acaba tendo um excelente desdobramento: o de perceber que música não é despesa, de que cultura não é despesa. Quando isso acontece aqui?
Lembro-me agora de alguns solistas internacionais que,  só por virem solar no Brasil, não trazem seu melhor  instrumento. O estrangeiro acabou conhecendo que aqui no Brasil, embora exista hoje um momento de florescer econômico, não se investe em cultura e educação de modo estável, sólido, orgânico. A WOP me mostrou que há muita gente que faz música dentro de um clima de trabalho exigente, sério, mas ao mesmo tempo distendido, repleto de entusiasmo, alegria e paixão. Todas as vezes que toco lá fico emocionado. E  essa é a verdadeira essência da música.

Você pensa em ser maestro?

(Risos). Não exatamente, mas estudar regência acaba sendo uma necessidade.

 

Abaixo, durante ensaio na Sala Tchaikovsky do Conservatório de Moscou. Pablo de León ocupa a função de concertino. A seu lado, na função de spalla da WOP, o spalla da Filarmônica de Viena.