Tchaikovsky: do desentendimento à admiração

Tchaikovsky: do desentendimento à admiração

Alvaro Siviero

22 Março 2018 | 12h32

Sim, você certamente já ouviu os acordes iniciais do Concerto n.1 para piano e orquestra em si bemol menor, Op.23, do romântico russo Piotr Ilyich Tchaikovsky. Quer tirar a prova? Escute os primeiros dez segundos da obra, aqui abaixo.

No início do mês de março a interpretei com a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro, sob a batuta segura do maestro Cláudio Cohen, em um dia mais que especial – era o 06 de março – em que a OSTNCS celebrava seus 39 anos de existência (a largada para os 40!). Teatro lotado, público alvoroçado e todos nós músicos adrenalizados pois, afinal de contas, não se tratava de uma obra qualquer. No próximo 24 de agosto, às 20h, na abertura de sua temporada, a Orquestra Sinfônica Jovem Municipal de Guarulhos, sob a batuta de seu regente titular maestro Emiliano Patarra, repetirá a dose. Tudo isso dentro das comemorações dos 125 anos de falecimento do compositor.

O que talvez você não saiba é o que relatarei a seguir. Três dias após a finalização desta obra monumental, composta por um Tchaikovsky maduro (ele a compôs aos 34 anos de idade), o autor a interpretou ao renomado pianista e, então, diretor do Conservatório de Moscou, Nikolai Rubinstein, desejoso de que Rubinstein aceitasse seu convite a interpretá-la em sua première. O desejo, no entanto, transformou-se em constrangimento, segundo o relato do próprio Tchaikovsky.

“Toquei o primeiro movimento. Nem uma única palavra, nem uma única observação. Se você soubesse o quão desconfortável e intolerável é a situação de alguém que cozinha e coloca o prato diante de um amigo que come em silêncio. Uma palavra gentil, ou uma crítica amigável, ou até mesmo uma palavra de simpatia, mesmo que não seja de louvor, é o que se espera. Rubinstein estava acumulando sua tempestade. Ele parecia estar dizendo “Meu amigo, como posso falar de detalhes quando a obra toda é antipática?”. Eu me fortaleci com paciência e toquei até o fim. Mais silêncio. “Está bem?”, perguntei, E veio o terremoto de ataques que fizeram-me tentar sentir que meu concerto era inútil, que não poderia ser tocado, que as passagens eram fragmentadas e desajeitadas. Mal escritas. Em alguns lugares, inferiu-se que eu havia roubado o tema de outros compositores, que apenas duas ou três paginas valeria preservar, e o resto deveria ser todo jogado fora ou ser completamente reescrito. “Aqui, por exemplo, isso… o que é tudo isso?”, questionava-me Rubinstein, enquanto caricaturava minha música no piano. A principal coisa que nao consigo reproduzir é o tom em que tudo isso foi pronunciado. Eu não estava apenas surpreso, mas indignado com toda aquela cena. Eu não sou mais um garoto tentando compor. Eu preciso e sempre precisarei de criticas amigáveis, mas não havia nada de parecido com isso: foi uma censura indiscriminada e determinada, entregue de tal maneira, que me feriu rapidamente. Saí do quarto sem uma palavra e subi as escadas. Na minha agitação e raiva eu não podia dizer nada. Vendo-me assim, convidou-me a irmos a outro quarto distante e lá repetiu tudo outra vez afirmando que se dentro de um tempo limitado eu retrabalhasse o concerto de acordo com suas exigências, ele me daria a honra de tocar minha obra.”Eu não alterarei uma única nota. Publicarei a obra exatamente como ela é”, limitei-me a responder.”

Coube ao pianista alemão Hans von Bulow, que recém havia se apresentado com grande êxito em turnê pela então antiga União Soviética, fazer a estreia da obra, que ocorreu em Boston, com enorme êxito. Após outras apresentações repletas de êxito em terras americanas, o próprio Rubinstein reconheceu sua precipitação – fruto da inveja? da insegurança? de uma situação de prestígio e poder da qual gozava? – e foi um fervoroso defensor do concerto, interpretando-o muitíssimas vezes por toda a Europa.