Silvia Luisada e sua OFISA em trabalho de resgate artístico, social e educacional

Silvia Luisada e sua OFISA em trabalho de resgate artístico, social e educacional

Alvaro Siviero

10 Maio 2018 | 11h21

É no dinamismo e empreendedorismo musical da maestrina Silvia Luisada que encontramos a explicação para a milagrosa existência do trabalho da OFISA – Orquestra Filarmônica de Santo Amaro, no bairro de Santo Amaro, onde uma andorinha faz verão. A esta musicista pode ser perfeitamente aplicado o perfil daqueles profissionais independentes que, a cada dia em maior número, se descolam das instituições que, seja por despreparo, burocracia, ineficiência, envelhecimento político ou até mesmo cultural, não conseguem, na prática, realizar o trabalho que, em teoria, lhes compete. Iniciativas como o Violin Festspiele Brasil (em Curitiba, promovido pelo violinista Winston Ramalho), o Encontro Campestre de Violas (realizado em Piracicaba), a Sinfônica de Heliópolis (encabeçada pelos irmãos Ventureli), são alguns dos inúmeros exemplos de pessoas que vivem aquele “Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora não espera acontecer”. João Luiz Sampaio, em recente matéria publicada neste mesmo veículo de comunicação, aborda o tema com propriedade e desbragada transparência (ler aqui).

À OFISA (corpo artístico principal, com 48 integrantes) unem-se a OSL (54 integrantes) e o coral Rachel Peluso (fundado em 2002, com 71 integrantes) que, todas as quartas-feiras, levam música a asilos, orfanatos e hospitais, chegando a promover – como a própria maestrina relata de modo divertido – flashmobs nos espaços mais inusitados, como o ocorrido dentro do trem entre o Largo 13 e o Capão Redondo. Tudo em Santo Amaro. Em fevereiro de 2017, durante uma visita do atual Secretário Municipal de Cultura, André Sturm, à Casa de Cultura de Santo Amaro (antiga sede da OFISA) as portas se abriram: o heroísmo daquele trabalho realizado em condições adversas, desprovido de estrutura e sem nenhum tipo de investimento ou apoio econômico por parte das autoridades culturais competentes comoveu Sturm e seus assessores. As apresentações da OFISA, até então, ocorriam nos espaços mais variados, inusitados: anfiteatros de escolas, salões de clubes, praças, sempre com renda reduzida ao arrecadado pela simbólica bilheteria de ingressos vendidos a preços mais que popular. Sensibilizados com este fato, a OFISA recebeu por parte da Secretaria Municipal de Cultura a imediata autorização para utilização permanente de um novo espaço, o Teatro Paulo Eiró, atual sede de ensaios da orquestra. “Assim que eles me deram o OK, eu não esperei nada. Mudei-me no mesmo dia. Arrumei um transportador”, afirmou a maestrina de modo leve e divertido, características suas.

Os pagamentos dos custos com partituras, roupas para os músicos, impressões dos programas, banners divulgativos, entre tantos outros investimentos necessários para a realização dos concertos mensais da temporada anual da OFISA, são milagres que não se explicam. “Iniciamos agora a ideia de termos pacotes de vendas: quem fizer a assinatura dos 8 (oito) concertos da temporada 2018, receberá um desconto de 50% do valor total. Já conseguimos 30 assinantes. Se conseguirmos fechar essas assinaturas eu proporei a realização de um segundo concerto, no período da tarde, pois, dado que o repertório já estará preparado, podemos conseguir um aumento de renda e, com esta verba, começar a pagar um pequeno cachet para os músicos”, complementa Luisada. “Estamos abertos a qualquer valor arrecadado. Eles não tem nada”. Uma Madre Teresa, não de Calcutá, mas de Santo Amaro. Um trabalho infinito, de enorme responsabilidade, com o peso de toneladas, mas encarados com leveza e sentido de humor. Nas redes sociais, paralelamente, a incansável Silvia Luisada empreende outro desafio com a promoção de vídeos sob o título “Adote um Músico”.

A temporada 2018, iniciada no último 25 de março, como as edições anteriores, conta com explicações sobre a vida e obra dos compositores, feitos pela própria maestrina. O público entra em sintonia absoluta. Um momento rico de lazer e investimento cultural. “Não se fala aqui de realização musical em nível de perfeição. O que busco é criar o interesse pela música de concerto, pela formação de novos públicos, de novas plateias”. “Esses dias estava no supermercado, bem à vontade, e passaram algumas pessoas que começaram a me olhar. A seguir uma outra senhora também se aproximou e ficou me observando. Passado alguns minutos todos se uniram e disseram “A senhora não é a maestrina? Nós adoramos seus concertos”. Não há alegria que pague isso”.

No próximo dia 27 de maio, domingo, às 11h, no Teatro Paulo Eiró  (Av. Adolfo Pinheiro, 765 – Santo Amaro, São Paulo – SP, 04739-000), estarei me unindo pela segunda vez a esta empreitada. Quero ajudar. Como diz o ditado: quem não vive para servir, não serve para viver.

Oxalá iniciativas como essa recebam todo o apoio e investimento que merecem.