Patrimônio Cultural da Humanidade é tema da abertura de temporada da OSESP

Patrimônio Cultural da Humanidade é tema da abertura de temporada da OSESP

Alvaro Siviero

09 Março 2017 | 10h55

Sala-Sao-Paulo

A Nona Sinfonia – ou, simplesmente, a Nona – de Beethoven (1770-1827) é a primeira peça musical a receber a distinção de Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO. Completada três antes antes da morte de seu autor, a Sinfonia Coral, como também é designada, recebeu a honraria de ser a mais célebre obra do repertório ocidental, não somente por seu imenso valor musical, mas por seu papel cultural de extrema relevância no mundo atual, carente dos valores proclamados pela obra. “Escuta, irmão, esta canção da alegria. Um canto alegre de quem espera um novo dia. Vem! canta, sonha cantando, viva esperando um novo sol onde os homens voltarão a ser irmãos“, brada o coro no último movimento da obra, baseada no poema Ode an die Freude (Ode à Alegria), de Schiller. Tornou-se o Hino da União Européia quando, após a queda do Muro de Berlim, foi executada no Portal de Brandemburgo, sobre os olhares e prantos emocionados de milhões de pessoas que acompanharam o espetáculo. Seu manuscrito original atingiu o valor de 3,3 milhões de dólares quando, em 2003, foi vendido pela Sotheby’s de Londres.

É razoável, portanto, que os ingressos para as apresentações que marcarão a abertura da temporada 2017 da OSESP, sob regência de Marin Alsop, com participação do coro da OSESP, Coral Lírico Paulista, Coro Acadêmico da OSESP e os solistas Camila Titinger (soprano), Luisa Francesconi (mezzosoprano), Paulo Mandarino (tenor) e Leonardo Neiva (barítono), nos dias 09, 10 e 11 de março, estejam todos esgotados. Até mesmo uma apresentação “extra” foi realizada ontem, Dia Internacional da Mulher, e transmitida ao vivo para milhares de internautas, no marco dos 190 anos de passagem do gênio alemão.

Para os que estiverem presentes em algumas das apresentações (e para os que quiserem tomar contato com a obra), gostaria de dividir 4 impressões pessoais que, assim desejo, poderão modificar e ajudar o entendimento da obra, trazendo elementos novos à escuta.

  1. O primeiro movimento da obra começa com uma sonoridade neutra (intervalos de quinta). Não sabemos o que vai acontecer, assim como ocorre com a vida de qualquer pessoa. Inesperadamente, estoura um acorde em Ré Menor, uma alusão à aparição da vida do ser humano, em seu contato com a dor e seus desafios.
  2. O segundo movimento possui um marcado caráter dançante, que nos convida a dançar e desfrutar das coisas boas da vida.
  3. No terceiro movimento – o Adagio, de caráter lento – se produz o mais importante da obra: a transformação interior, quando entendemos a necessidade de abrir-se aos outros, à vida e ao sentido último da existência. Somente quando deixamos que este convite ressoe dentro do coração, e nos transforme, estaremos preparados a, pouco a pouco, adentrar o âmbito do quarto movimento que nos convida a cantar e nos unir uns aos outros, em um abraço sem fim.
  4. O regente da estréia (1824) não foi Beethoven, mas Michael Umlauf, diretor artístico do Karntnertortheater de Viena, local da apresentação, devido ao avançado estágio de surdez do autor. Beethoven  ocupou um lugar especial no palco, junto ao maestro.

O grande regente Iñigo Pirfano, idealizador do projeto A Kiss for All the World, está protagonizando um momento mágico da música mundial: levar esta obra ao ser humano que sofre. Presídios, hospitais e periferias da existência humana que se transformam em plateias ávidas de sentido. O convite é, todos os dias, feito a cada um de nós que, com a dignidade de uma vida bem vivida, pode ser elo de transformação aos que estão ao nosso redor.