O Nordeste cultural brasileiro em busca do filé mignon

O Nordeste cultural brasileiro em busca do filé mignon

Alvaro Siviero

29 Abril 2018 | 18h33

Há poucos dias, tive a alegria de conhecer as origens geográficas de minha família. A cidade de Mossoró cativou-me não somente por sua alegria e calor humano (superior às altas temperaturas que ali enfrentei) mas, principalmente, por suas enormes possibilidades culturais. Vamos por partes. Primeiramente, não esperava encontrar aí um teatro como o Dix-Huit Rosado, maravilhosamente acabado, amplo e com totais condições de receber qualquer tipo de apresentação, nacional ou internacional. Superou minhas expectativas a postura proativa e combativa dos músicos da Orquestra Sinfônica da UFRN que, capitaneados por seu talentoso maestro André Muniz, doavam-se a cada nota executada e a cada frase musical interpretada. Músicos com garra. Surpreendeu-me também a imensa fila de pessoas que avistei de dentro do carro que me levava ao estacionamento do teatro: todos em busca de seu ingresso, e que virava o quarteirão. Ingressos esgotados. Teatro lotado (veja o vídeo abaixo). A presença massiva da sociedade potiguar, liderada por sua prefeita – Sra. Rosalba Ciarlini – marcava o ritmo de toda esta grandiosidade. No dia anterior, na sede da prefeitura da cidade, a Sra. Rosalba Ciarlini havia mencionado seu forte desejo de maior democratização de atividades de concerto. Ninguém ama o que não conhece. Nesta ocasião, igualmente, manifestou seu desejo da compra de um novo piano para o teatro, digno das possibilidades desta casa. Ministrei palestra para um público ávido de conhecimento. Pela manhã, ao dia seguinte, recebi um bom grupo de alunos de piano, igualmente ávidos de orientação e apoio avançado.

Muitos de nós brasileiros temos, mesmo que parcialmente, uma visão distorcida do Nordeste brasileiro. Entendemo-lo como um terreno cultural em desvantagem. Essa visão, muitas vezes, infelizmente, surgiu como consequência da implementação de políticas culturais desastradas e desastrosas, lideradas por agentes culturais que, seja por despreparo pessoal, seja por modismo, quiseram fazer da cultura sinônimo de qualquer coisa. E o investimento devido à verdadeira cultura escoa por qualquer manifestação de liberdade de expressão, de diversidade mal entendida, de tolerância intolerante e de apoucamento de valores, transformando e veiculando a impressão de que nosso querido Nordeste Brasileiro, muitas vezes, seja um espaço do eterno for all (forró), da cerveja e dos trios elétricos que oferecem a alegria do pula-pula. Felizmente, o que vi nas pessoas e em seus anseios durante os dias em que lá estive demonstrou o oposto. Com as dezenas de pessoas com as quais pude conversar, seja na rua, no ambiente universitário ou dentro mesmo das instalações do Teatro Dix‑Huit Rosado, encontrei gente de profundas aspirações, gente que quer mais, que busca ser mais e que almeja encontrar nos clássicos, no que é permanente, a resposta a tantas indagações vitais. Política ou comercialmente falando – dentro de uma visão meramente interesseira da verdadeira cultura – pode-se até ser vantajoso investir em um pedaço de osso. No entanto, chega sempre o momento em que vale o dito popular: “Roe osso quem nunca teve a chance de comer file mignon…”.

Um exemplo vivo desta realidade é a Orquestra da UFRN, formada por alunos dos cursos técnicos, da graduação e de pós-graduação da Escola de Música da UFRN. Mesmo sendo o único laboratório orquestral de ensino, pesquisa e educação musical do estado,  diversos músicos formados pela Sinfônica da UFRN conseguiram posições em grupos profissionais, hoje atuantes na Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, Orquestra Filarmônica de Goiás, Orquestra Sinfônica Nacional (UFF) e Orquestra Sinfônica da Paraíba. Bolsas de intercâmbio no exterior – como as da Academia Sibelius (Finlândia) ou da École Normale de Musique de Paris – já são realidade no histórico deste grupo sinfônico. Suas apresentações no ano de 2017 atingiram mais de 25 mil pessoas, comprovando, uma vez mais, a existência de demanda que, sem dúvida, não pode ser reprimida. O empenho no crescimento artístico, bem como todo o esforço de profissionalização que o grupo sinfônico tem demonstrado buscar, fá-lo merecedor de um olhar sempre mais cuidadoso e atento à melhoria de suas condições, investimentos e crescimento.

Observei o mesmo no não tão longínquo Estado de Sergipe, onde a ORSSE – Orquestra Sinfônica de Sergipe – comprova que a Música clássica é para muitos. Em realidade, é para todos (for all, para todos). Lembro-me sempre com muito carinho de todas as vezes que lá estive, como convidado da ORSSE, verificando a alegria do povo sergipano ao receber os clássicos. Como esponjas ressecadas, ávidas de mais água, adentravam o Teatro Tobias Barreto em efeito tsunami. Abriam-se as portas, e as pessoas corriam para conseguir um bom local no teatro. Após um aumento significativo dos vencimentos de seus membros, com a gestão do atual Secretário de Cultura João Augusto Gama, ex-prefeito de Aracaju, o grupo vem desenvolvendo sua Temporada 2018 com parcerias. Muito ainda precisa ser realizado, e é mister que os candidatos ao cargo de Governador estejam cientes de que a ORSSE é patrimônio cultural. De que a ORSSE é a embaixadora cultural do Estado. E de que cultura não é despesa, é investimento. Neste sentido, os bons ares começam a chegar: o Teatro Tobias Barreto, com capacidade para 1300 lugares, está em fase de reforma fruto da parceria entre o Governo de Sergipe e a Celse, Centrais Elétricas de Sergipe, nova companhia energética do Estado e responsável pela instalação da maior termelétrica do país.

O que dizer das apresentações da Orquestra Sinfônica do Mato Grosso que arrancavam 40 mil pessoas em suas apresentações? O que falar de heróis, como o maestro Laércio Sinhorelli Diniz, que realiza um profundo trabalho de resgate com as apresentações da Orquestra Sinfônica Municipal de João Pessoa? E os exemplos se seguem… uma onda que provoca outras…

Como dizia Lulú Santos, em sua conhecida canção Como uma onda, também podemos dizer que “há tanta vida lá fora..”. Oxalá saibamos fomentar e canalizar toda esta riqueza musical do nosso povo brasileiro em sua verdadeira direção e dimensão.