Música e Solidariedade

Música e Solidariedade

Alvaro Siviero

09 Setembro 2014 | 09h37

A partir de hoje farei uma viagem no tempo e no espaço. Isso mesmo. E será para o passado. Olhar pelo retrovisor pode ser muito bom quando se pretende aprender e reviver bons momentos.

Como muitos sabem, as apresentações musicais, lá em sua origem, não ocorriam como nos moldes atuais, em salas de concerto ou teatros modernos, com direito a bilheteria e tratamento acústico. Os saraus musicais, como eram conhecidos, realizavam-se na casa de nobres ou mecenas, onde os presentes encontravam oportunidade de lazer, de relação, de entretenimento.

Foi aproximadamente na segunda metade do século 17 que agremiações musicais – as orquestras – começaram a se apresentar de modo mais frequente, criando a necessidade de espaços apropriados. O presbitério de algumas igrejas, como é o caso da Thomaskirche, em Leipzig, muito contribuiu neste sentido. A seguir surgiram as Konzerthaus na Europa e, mais tarde, os Concert Halls nos USA, com todos os recursos de profissionalismo e produção de que são capazes. Como nada é perfeito nesta vida, o ganho em profissionalismo deu lugar à perda de pessoalidade, de intimismo.

E é exatamente isso que pretendo provocar nos recitais que farei aqui no Brasil, antes de meu já próximo embarque à Europa onde darei continuidade a esta visão: transformar o palco dos teatros em salas de estar. Quero falar sobre a vida dos autores, sobre as obras que serão interpretadas e sobre o papel e importância da música na vida do homem moderno. Um pouco de tudo. E só então, do piano, quero que a música agasalhe os presentes. Uma quebra consciente de protocolo desfazendo o mito de que a música de concerto, como alguns podem afirmar, é elitista (quem disse que sensibilidade musical está relacionada a classe social?), inacessível pelo preço (há inúmeros concertos gratuitos ou de valor extremamente acessível, sem contar que muitos desses críticos frequentam “shows” de valor bastante superior) ou inferior à música popular (o que é música popular? Na Áustria é Mozart).

Os recitais são de iniciativa e patrocínio da Hunter Douglas que, exercendo seu papel de responsabilidade cultural, decidiu ir além, revertendo a renda integral arrecada a instituições de cunho social e educacional. Um outro golaço. Pede-se, aos que puderem, que tragam 1kg de alimento não perecível. A busca já é imensa. E fiquem na torcida: quero trazer muita gente para a música de concerto, minha paixão, que pode também começar a ser sua. Porque não?