Mozart, o mal e a visão do perdão

Mozart, o mal e a visão do perdão

Alvaro Siviero

17 Junho 2014 | 22h37

Quando Mozart compôs sua Missa da Coroação em dó maior K317 – Krönungsmesse – aos 23 anos de idade (1779), em Salzburg, sua genialidade propôs um paralelo musical entre perdão e paz, tecendo e revelando uma estreita relação vivencial entre esses conceitos. Através da música. Coisa de gênio.

Todo ato de perdão pressupõe a existência de um mal real e objetivo. Negar a ofensa ou fingir que ela não existiu descaracteriza o valor e o próprio conceito do perdão: sem agravo não há o que perdoar. Perdoar não é fechar os olhos diante da injustiça sofrida, mesmo sabendo que a injustiça dói, fere. Mas se não queremos vê-la não podemos curá-la. Diversos autores afirmam que tentar esquecer um mal sofrido é lançar um boomerang que não tarda em retornar, e pela porta dos fundos. E retorna como experiência traumática. A dor negada, mal resolvida, sepultada nas profundezas do coração, acaba por criar seres humanos endurecidos pelo medo de sofrer mais. Gente emocionalmente fechada. Nenhuma dessas atitudes tem a ver com o perdão. Perdoar não é esquecer. Perdoar é perdoar. É renunciar livremente a qualquer tipo de contra-ataque diante de injustiças reais e objetivas (não aquelas que a imaginação ou a hipersensibilidade doidamente fabricam). Perdão e ofensa são cara e coroa da mesma moeda. E é na capacidade de, livremente, colocar um ponto final no círculo vicioso ódio-violência-ódio, impedindo que a reação em cadeia continue, que reside a grandeza do ser humano. Libertar o ofensor pelo perdão é, antes de mais nada, libertar-se a si mesmo. Mágoas não fazem bem a ninguém. E não nos levam a lugar algum. E vem a paz verdadeira.

A Krönungsmesse, escrita quando Mozart exercia o posto de organista e compositor da corte na catedral de Salzburg, recebeu o cognome “Coroação” por ter sido extensamente utilizada na corte de Viena em cerimônias de entronização. No dia 29 de junho de 1985, dia de São Pedro, com a participação da Filarmônica de Viena e sob a batuta de Herbert von Karajan, esta obra foi transmitida ao vivo para o mundo, durante a celebração da Santa Missa oficiada por São João Paulo II (vídeo abaixo).

Kyrie (3:30 a 7:00) é a personificação do pedido de perdão. Sua melodia central (4:22 até 5:40), de caráter profundamente lírico, é repleto da simplicidade e verdade que todo arrependimento possui. A interpretação dos solistas deixa claro a busca do perdão. O Agnus Dei (40:37 a 48:00) é o hino de pedido da paz. Não uma paz qualquer, genérica, mas a de alma, pessoal. Primorosamente interpretado por Battle, o pedido de paz no Agnus Dei (45:00 a 46:150) propõe como tema musical exatamente o mesmo tema do Kyrie. E é Mozart, neste momento, que traça a relação entre essas duas realidades humanas, mostrando que perdão e paz caminham de mãos dadas.

 

Kyrie eleison, Christe eleison, Kyrie eleison (Senhor tende piedade de nós, Cristo tende piedade de nós, Senhor tende piedade de nós).

Agnus Dei qui tollis peccata mundi, miserere nobis. Agnus Dei qui tollis peccata mundi, dona nobis pacem. (Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós (2x). Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, dai-nos a paz).