Mendelssohn: paixão e morte?

Mendelssohn: paixão e morte?

Alvaro Siviero

22 Setembro 2014 | 10h46

No mundo da fofoca e dos achismos, onde suposições ganham status de verdade, o estrago muitas vezes não é pequeno. Interpretações transformam-se em rótulos. Visões subjetivas, maquiadas de probabilidade, transformam-se em fatos. E a confusão está feita.

Uma dessas interpretações ronda a vida do compositor alemão e criança prodígio Felix Mendelssohn Bartholdy (1809-1847), que morreu aos 38 anos de idade. Nascido em Hamburgo, falecido em Leipzig e enterrado em Berlim, pertencia a uma família muito rica de banqueiros judeus, convertidos ao Cristianismo. Responsável pela redescoberta e devolução ao mundo da importância de seu conterrâneo Johann Sebastian Bach em 1829 quando, aos 20 anos, regeu em Berlim a célebre Paixão Segundo São Mateus que havia ficado por quase 100 anos esquecida, chegou a receber da Rainha Victoria uma estátua no Crystal Palace como reconhecimento de seu sólido e genial trabalho musical. Cresceu em um ambiente de intensa efervescência musical, com a melhor que a educação da época poderia fornecer.

Uma paixão não correspondida pela soprano sueca Jenny Lind teria sido a causa de sua morte. A tese se apoia em documento encontrado nos arquivos da Royal Academy of Music, em Londres, onde o autor teria declarado seu amor ardente que, se não correspondido, o levaria ao suicídio. Supõe-se que Jenny, efetivamente, recusou. Meses depois, Mendelssohn estava morto. Factóide? Não saberia responder.

Faz uma semana, na Sala São Paulo, presenciei a apresentação da Orquestra Sinfônica de Lucerna, dentro da programação da Sociedade de Cultura Artística. Apresentação memorável. Imagine um violino de tal potência que fosse capaz de produzir o som correspondente a 40 violinos (ou 50, 60… escolha você). Pois bem, o que ocorreu nesta apresentação foi o inverso: todos os violinos se transformaram musicalmente em um único, tamanha a perfeita afinação, idêntica intenção musical e fraseado. O mesmo aplica-se para as violas, violoncelos, contrabaixos. Tudo puro. Perfeito. Há muito tempo, na Sala São Paulo, eu não era tomado por esse êxtase. O solista convidado – o violinista francês Renaud Capuçon – fez sua contribuição a esse panorama com uma impecável apresentação do Concerto para Violino e orquestra do compositor, uma de suas mais importantes contribuições. Aos que não puderam estar presentes, o vídeo abaixo parcialmente supre o momento.

Carrego, no entanto, uma dor. Em Roma, quando visitei sua residência em plena Piazza Spagna, ao lado das escadarias de Trinità dei Monti, ao subir as escadarias empedradas do edifício que me levariam ao apartamento do gênio alemão, qual não foi minha decepção ao verificar que, hoje, no mesmo local, encontra-se uma clínica de estética…