Maestro Joaquim Jayme: 1941-2017

Maestro Joaquim Jayme: 1941-2017

Alvaro Siviero

16 Maio 2017 | 10h09

No início desta madrugada, o mundo musical foi tomado pela dolorosa notícia do falecimento do maestro Joaquim Tomás Jayme. Ao receber a notícia no meio da madrugada, confesso,  fui tomado por um grande sentimento de paz e dor durante o longo espaço de tempo que fiquei relembrando tantos momentos que dividimos no palco à frente da sua amada Orquestra Sinfônica de Goiânia. Como músico, pelos idos de 2010,  já havia chegado aos meus ouvidos o combativo trabalho musical que Joaquim Jayme realizava na cidade de Goiânia. Os elogios igualmente relatavam o clima familiar, amistoso, que o maestro era capaz de imprimir em seu ambiente de trabalho. E eis que, um belo dia, toca meu celular. “Alvaro, bom dia, aqui é o maestro Joaquim Jayme. Gostaria de convidá-lo a vir a Goiânia para fazer conosco um belo concerto”. Perguntei-lhe qual a data prevista para esta apresentação e qual o repertório a ser preparado. “Meu amigo, escolheremos tudo isso juntos. Veja o que é melhor para você”. E foi naquele momento que uma espécie de pó de pirilim-pim-pim me enfeitiçou. O timbre e entonação daquele voz veiculavam um mix de bondade, simplicidade, alegria e acolhimento que cativava. “Que homem interessante”, pensei. Procurei saber um pouco mais sobre a trajetória deste homem que, até então, somente conhecia pela afabilidade da voz. E fui aí que tomei todo o conhecimento do gigante que se encontrava do outro lado da linha telefônica.

Seu primeiro instrumento foi o piano, estudando com Sebastian Benda e Pierre Lose. A seguir veio a regência e composição com Koellreuter e Miklós Kokrom. Sob orientação do maestro e compositor Cláudio Santoro estudou análise e fuga, regência orquestral, instrumentação e orquestração. A seguir embarcou para a Universidade de Rostock, Alemanha, onde concluiu seu mestrado em Musicologia e lecionou. Professor Adjunto do Departamento de Música da UnB, Professor Titular da Fundação das Artes de São Caetano do Sul, Professor Titular e Diretor da Escola Superior de Música da Universidade de Concepción, Chile. Fundador e Regente Titular do Coral do Estado de Goiás, bem como da Orquestra Filarmônica de Goiás, da qual foi regente titular. Foi Secretário da Cultura, Esporte e Turismo de Goiânia , bem como autor de diversas obras para piano, canto, orquestra de cordas, obras sinfônicas, dezenas de arranjos para coro e quase uma centena de canções populares e líricas com textos de poetas brasileiros e estrangeiros. Foi o fundador da Orquestra Sinfônica de Goiânia, da qual exerceu o papel de regente titular até a presente data. Sim, eu estava diante de um gigante.

Aos que somente o conheceram da platéia, sério e concentrado, afirmo que o mais me cativava durante os ensaios era sua gargalhada ampla, aberta, que ocupava todo o espaço da sala de concerto. Sim, o maestro Joaquim Jayme era um homem muito feliz e intenso em tudo o que fazia. Era intenso seu olhar profundo e terno, intenso em sua capacidade de trabalho, intenso era seu abraço, intenso na amizade. Um homem que dividia suas preocupações sobre alguns rumos desastrados que a cultura empreendia, nunca falando mal de ninguém. Separava o pecado do pecador. Queria a todos. Um homem enamorado do que fazia.

Faz poucos meses, após o AVC sofrido, tomei conhecimento da necessidade médica de colocá-lo, o quanto antes, em contato com a  música. Um exercício de ativação cerebral. Preparei, com cuidado e amor, uma trilha sonora de grandes clássicos e as enviei. Não faltaram nesta seleção a intensidade dos grandes compositores sinfônicos, especialmente os russos, que ele tanto amava: Beethoven, Tchaikovsky, Rachmaninov, entre outros. Coincidentemente, ontem pela tarde, neste período de outono, enquanto lia um poema, pensei na fugacidade desta vida: “Já viste numa tarde triste de outono como caem as folhas de uma árvore? Pois bem, assim caem todos os dias as almas na eternidade. Um dia, a folha caída serás tu”.

O maestro Joaquim Jayme foi um gigante. Corrijo-me: é um gigante. E o trarei sempre dentro das boas lembranças que esta vida me proporcionou. Um mestre, no sentido mais pleno da palavra. Um homem sem pose. Um homem cujo amadurecimento fê-lo preparado a não se deslumbrar com o próprio umbigo. Um homem a serviço.

Em nossa última apresentação interpretamos os dois concertos de Liszt: os de n.1 e n.2. Nos divertimos um bocado. Deixo abaixo, encontrado no YouTube, esse registro enquanto penso que hoje, lá do alto, continuarei estendendo minha mão para que toque a dele. Certamente, um dia nos encontraremos. Fica com Deus, meu amigo!