Instituto Baccarelli: um resgate social, educacional e cultural

Instituto Baccarelli: um resgate social, educacional e cultural

Alvaro Siviero

29 Abril 2017 | 13h12

Os problemas de uma sociedade não passam de uma projeção ampliada dos conflitos que cada um trava dentro de si. Pessoas alegres, éticas, otimistas e que pensam no bem dos outros geram relações sadias, sólidas, bem constituídas, assim como pessoas interesseiras, egocentradas e gananciosas inevitavelmente geram relações comerciais, de consumo, desumanas. Andam na contramão. A experiência comprova isso. Os desmandos que atualmente invadem os noticiários em rede nacional encontram sua explicação última na vida pessoal de cada um dos envolvidos. Por azar (ou sorte), cumpre-se o dito popular: bandido fica com bandido, bom aluno busca bom aluno.

Foi essa energia coletiva do bem e do altruísmo que tomou conta de mim no último dia 21 de abril, em pleno feriado, quando visitei o Instituto Baccarelli (Orquestra de Heliópolis) para os ensaios de uma apresentação que realizamos no último dia 23 de abril, com o Concerto n.1 para piano e orquestra em dó maior, Op.15, de Beethoven, sob a regência de Edilson Ventureli. Tudo ali era diferente. Desde a gentileza e cortesia com que fui recebido, à – e isso muito me chamou a atenção – atitude desprovida de pose, de nariz empinado e autossuficiência daqueles jovens músicos que, para minha felicidade, encontraram na boa Música um eco preciso da nobreza de coração que os movia. Divertimo-nos um bocado,  tiramos fotos, sugerimos mudanças na interpretação e até fizemos um vídeo-convite, tão natural e espontâneo quanto a verdade da empatia que nos uniu. A impressão era a de que nos conhecíamos há muito tempo. Em realidade, era a primeira vez (www.facebook.com/alvarosiviero, com data de 21 de abril). Resultado? O ensaio previsto para o dia 22 de abril não se fez necessário e a apresentação do dia 23 de abril foi um êxito.

Seria falso imaginar que um músico é profissionalmente realizado devido ao seu poder de arrebanhamento humano, por ter seu nome estampado em alguma revista ou pelo número de curtidas e adeptos em suas publicações de redes sociais. Nada mais triste. Igualmente falso, e um tanto imaturo, é o pensamento de que somos a bola da vez, o “poderoso do pedaço”. Além de significar um enorme reducionismo degenerado ao verdadeiro valor e importância da Música, a falta de um ajuste íntimo no ser humano que existe por detrás de qualquer profissional, transforma em algo vão quaisquer esforços – até legítimos – de notoriedade. Mais do que isso, quando se é artista de verdade, o único que não nos interessa é a notoriedade pela notoriedade. Fama e poder não dão sentido à vida de ninguém. Não levam ninguém a lugar algum. Um propósito de vida, honesto e altruísta, sim. Ter sucesso é ser feliz. E nada paga a expressão de alegria estampada nas feições de cada um durante aquele delicioso ensaio, em pleno feriado.


É surpreendente, tanto quanto verdadeira, a afirmação daquele executivo, quase em desabafo: “O que mais custa é perceber que, após minha substituição, no dia seguinte meu celular parou de tocar”.  Essa é a pergunta: o que, de fato, eu busco? O que pretendo sendo músico? Qual meu propósito real? É uma questão de intenção, de retidão de intenção.  O Instituto Baccarelli busca mostrar-se mais preocupado com seu propósito real. Surpreende a quantidade de resgate social e educacional criado. Não são poucos os ex-alunos que avançam em seus estudos no exterior. Um profundo trabalho, real, de resgate.

A transformação de uma sociedade através da educação musical é um discurso carregado por muitos. Pega bem. Há quem empreenda esta viagem por motivos políticos. Há quem o faça por demagogia. Há quem o faz por amor. E é na verdade das intenções – e isso ninguém pode julgar, somente a consciência de cada um – que constatamos os resultados satisfatórios.