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Brahms hipnotizando bebês

Alvaro Siviero

18 fevereiro 2016 | 11:11

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Não conheço muito sobre comportamento de crianças, mas debitei o desmaio do bebê a puro cansaço. No início do vídeo vê-se que os olhos estão ainda abertos por puro acaso. Era uma questão de tempo para o pobrezinho capotar. Mas o incrível foi perceber como, tão logo a música se iniciou, o desmoronamento veio abaixo. Desligou-se o interruptor. Primeiro um bocejo e, depois, o apagão. Uma questão de segundos. Certamente influenciaram um bocado:
1. A criança não estava em um local qualquer, mas no colo do pai que, de modo zeloso e carinhoso, antes mesmo de a música se iniciar, verifica o conforto da criança.
2. O beijo amoroso do pai completava na alma do bebê o afeto que, fisicamente, aquele corpinho já recebia.
3. Interessante observar que a música não foi interrompida quando o bebê adormeceu: o pai era movido pelo amor, não pelo pragmatismo.

É neste ambiente de amor e confiança que surge a atmosfera de paz e serenidade que nos torna autênticos, fomentando as confidências da amizade, acolhendo declarações de amor e, em outros casos, criando aqueles grandes momentos de silêncio, não por falta de assunto, mas por excesso de afinidade. É o momento em que nos desarmamos, nos sentimos intimamente ajustados. No caso do bebê – não poderia ser diferente – a consequência foi a soneca (risos).

Talvez poucos saibam que esta famosa cantiga de ninar foi composta pelo compositor alemão Johannes Brahms por ocasião do nascimento do segundo filho de uma grande amiga, Bertha Faber, por quem o autor havia se apaixonado em um passado já distante. O título da obra é Wiegenlied: Guten Abend, gute Nacht (Canção de ninar: Bom final de tarde, boa noite), publicada em 1868, revela que a música tem esse poder de adicionar um elemento extra que acelere e intensifique, na alma, o que o corpo busca. Andreas Rabenstein, homem barbado e profundo conhecedor de Brahms, faz um divertido comentário sobre o “lullaby” (canção de ninar, em inglês): “Bem, eu ouvi esta peça maravilhosa hoje pela manhã, e adormeci novamente”. Vê-se que a música produz seu efeito não somente em crianças e que, quando nos preparamos para ouvi-la, seu efeito é de faca quente em manteiga. A versão acima interpretada pelo pai, que não corresponde exatamente ao original, atingiu a finalidade. Abaixo, com a exímia violinista Anne-Sophie Mutter, vai a versão original para violino e piano.

Fica a dica antes de ouvir os clássicos: verifique como você está. Prepare-se. Feche os olhos. E deixe-se hipnotizar.

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