Beethoven: um homem provado na dor

Beethoven: um homem provado na dor

Alvaro Siviero

29 Janeiro 2016 | 16h18

Beethoven

Diz o ditado que quem não faz dá palpite. Pitacos aparecem em quase tudo: na forma como uma pessoa se veste, nas opções que faz, no modo como encara a vida. Podem até virar fofoca, ti-ti-ti mesmo. Com ares de intelectualidade, na música, há quem afirme que Chopin é meloso, que a obra de Liszt não tem conteúdo musical por ser puro exibicionismo e que a do compositor russo Tchaikovsky foi elaborada basicamente para pratos e bumbos. Em alguns casos é preferível permanecer no silêncio. Cada um pensa e faz da própria vida o que quiser. Em alguns outros casos preferi esclarecer o engano. No entanto, quando o assunto é Beethoven a postura é totalmente diferente: Beethoven está acima da lei. Nunca ouvi ninguém – assim mesmo – nin-guém, nem li em lugar algum palavras de desaprovação. Suas Sinfonias, Concertos, Quartetos de cordas, Missas, Aberturas, entre outros, ainda aterrorizam meio planeta. Um medo que vem da admiração. O modelo da perfeição musical.

Poucos sabem, no entanto, que o ser humano Ludwig van Beethoven foi um homem provado na dor. Sua mãe, Maria Magdalena Keverich Leym, perdeu seu primeiro bebê, fruto de seu casamento com Johann Leym. Em curto espaço de tempo – pouco mais de um ano – perde também o marido. Viúva, dois anos após, casou-se novamente com Johann von Beethoven com quem teve seu primeiro filho Ludwig Maria que, em cópia do que ocorreu no primeiro matrimônio, infelizmente faleceria em menos de uma semana. Com certeza, a sombra da dúvida pairou também sobre o futuro de seu segundo e legítimo marido. Será que novamente ocorreria o mesmo?

Passado o pesadelo, nasce o segundo filho Ludwig van Beethoven que, para minha surpresa, confesso, receberia o mesmo nome do irmãozinho mais velho falecido. A figura deste segundo filho certamente remeteria uma forte lembrança do primeiro filho falecido. Você já se imaginou carregando o mesmo nome de um irmão falecido? Tarefa nada fácil. A vida encarregou-se de dar ao casal 5 outros filhos: Caspar e Nikolaus – os dois mais velhos – e três outros que, infelizmente, viriam a falecer ainda muito jovens: Anna Maria Franziska (morreu 4 dias após o nascimento), Franz Georg (morreu com 2.5 anos) e a pequena Maria Margaretha, cuja morte representou um duríssimo golpe, dado ter sido ela a única irmã com quem Beethoven, de fato, conviveu e a quem profundamente se apegou (morreu com 1.5 anos, de causas desconhecidas).

A vida familiar era conturbada. O pai Johann von Beethoven, um alcoólatra inveterado, trazia ao lar intermináveis reações destemperadas, repletas de agressões, sumiços e maus tratos. Um fracasso como pai, como provedor e como profissional. O garoto, como esperado, afeiçoou-se absoluta e incondicionalmente à mãe. Mas como o machado afiado que sempre corta, o pior ainda estava por vir: dois meses antes do falecimento de sua irmã caçula Maria Margaretha, o estado de saúde de Maria Magdalena se agrava. Beethoven, que se encontrava em Viena em tentativa de conseguir ter aulas com Mozart, recebe a notícia que o faz retornar imediatamente a Bonn. Mesmo chegando a tempo de encontrar a mãe viva, poucos dias após seu retorno, ela falece, de tuberculose. Um golpe duríssimo.

O sonho de estudar com Mozart teve que ser interrompido por força da nova e drástica situação, tanto do ponto de vista econômico quanto musical. Beethoven somente pode transladar-se a Viena, definitivamente, em novembro de 1792, cinco anos após o falecimento da mãe. O falecimento precoce de Mozart, em 1791, aos 35 anos de idade, enterrou este outro sonho. Economicamente, a situação era ainda mais preocupante, forçando Beethoven a pedir às autoridades competentes que metade do dinheiro destinado ao pai lhe fosse entregue para que pudesse comer e dar de comer a seus dois irmãos menores. Tornou-se o arrimo da família, aos 16 anos de idade. Instalou-se em Beethoven uma doença física e emocional, de um adolescente que gerava em si mesmo um sentimento de inadequação em relação ao mundo.

Em uma de suas anotações, datada de 1820, Beethoven revela ao mundo o que teria sido o significado de toda a sua vida: “A Lei Moral dentro de nós e o Céu estrelado sobre nós”. O mesmo desafio que afunda o fraco é o que gera um líder. A dificuldade não se encontra no desafio, mas em como o encaramos. E o tempo se encarrega de dar perspectiva ao que aparentemente não mostra solução. “Estás intranquilo. Olha: aconteça o que acontecer na tua vida interior ou no mundo que te rodeia, nunca te esqueças de que a importância dos acontecimentos ou das pessoas é muito relativa. Calma. Deixa correr o tempo e, depois, olhando de longe e sem paixão os fatos e as pessoas, adquirirás a perspectiva, porás cada coisa no seu lugar e de acordo com o seu verdadeiro tamanho. Se assim fizeres, serás mais justo e evitarás muitas preocupações” (Caminho, 702). Mas foi em Viena, no ano de 1797, dez anos após o falecimento de sua mãe, com 27 anos de idade, que uma doença progressiva e impiedosa começou a manifestar seus primeiros sintomas, afetando profundamente sua vida: a surdez. Você já imaginou o que significa esta doença para um músico?

Em minhas andanças por Viena e Bonn busco ter presente que, por detrás de um gênio, sempre se esconde uma pessoa, que sofre e ama. Quando chego diante de seu túmulo procuro ficar de joelhos, não somente pelo músico que foi, mas pelo grande exemplo e legado humano que demonstrou. Lembro-me que em sua casa natal, em Bonn, concederam-me o privilégio de adentrar no exato cômodo em que nasceu. Como não havia ninguém por perto, senti o mesmo o impulso de colocar-me de joelhos enquanto passava minhas mãos pelo chão do quarto. Pode parecer infantil, mas moveu-me o desejo de imitar e de aprender daquele que mostrou que a árvore repleta de frutos sempre se encurva.

A música de Beethoven é um grito ao mundo. Estou convencido de que, se Beethoven não tivesse sido Beethoven, sua música não seria o que é, repleta de contestação, quebra de paradigmas e genialidade. Vale a reflexão. A dor sempre amadurece.

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