Bach: a Paixão Segundo São Mateus. Uma reflexão.

Bach: a Paixão Segundo São Mateus. Uma reflexão.

Alvaro Siviero

20 Março 2016 | 18h40

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Paixão Segundo São Mateus BWV244 (Passio Domini nostri Jesu Christi secundum Evangelistam Matthaeum) é, sem dúvida, a mais importante contribuição de Bach para a literatura musical do ocidente. Composta em Leipzig (1727), com duração que pode ser superior a 3h, constitui um relato musical impressionante dos sofrimentos de Jesus Cristo. Tendo sido esquecida por 100 anos, foi redescoberta por Felix Mendelssohn em performance que ocorreu na cidade de Berlim, com enorme aclamação da crítica, conferindo à obra a atenção pública e acadêmica que a entronou como patrimônio da humanidade. Composta em duas grandes partes, alterna-se entre coros, recitativos e árias de conteúdo narrativo incômodo, e que nos conduz a uma profunda reflexão sobre a vida e sobre os valores humanos.

A crucifixão era a mais cruel e afrontosa execução que a antiguidade conhecia: a morte sobrevinha após uma longa agonia, acelerada por verdugos que quebravam as pernas do crucificado. O relato histórico é trágico, de sofrimento físico e moral, de abandono. Um escândalo que acaba sendo ainda maior pelo motivo que o move: o amor.

O homem moderno convive com o sacrifício. E convive até mesmo quando, motivado pelo dinheiro, pela fama e poder, não se exime do sacrifício que o dinheiro, a fama ou poder exigem. Há os que se submetem com dolorosas e incômodas intervenções cirúrgicas por um nariz mais perfeito, há os que convivem com hematomas em busca de maior juventude, os que se corrompem pelo poder, os que abraçam a fome e exercícios físicos extenuantes para delinear o abdômen. Há os que abrem mão de tudo, até da própria saúde e família, em busca de uma promoção que lhes traga uma conta bancária polpuda na busca do carrão último modelo.

Em um plano mais elevado, há outros que não medem esforços para poder estar com a pessoa amada, como aquele amigo que andou 12 km (isso mesmo, a pé) para estar 15 minutos com a namorada. O amor motiva. O amor empurra. E o amor verdadeiro, assim como a ganância e a vaidade, não mede esforços. E é sobre esse amor que, em dose cavalar, Bach faz seu discurso musical. A obra de Johann Sebastian Bach joga luz no amor. O amor desinteressado, verdadeiro e total de Deus pelo homem. Um amor que choca e se torna incompreensível por estar na contramão dos valores de uma sociedade esvaziada e desnorteada, que se esforça por impor seus vazios como norma de conduta. O que escandaliza no relato desta obra monumental não é o sofrimento em si – que o digam os hematomas de uma lipoaspiração – mas sua motivação sobrenatural. Em outras palavras, o sofrimento é válido desde que sua motivação não seja sobrenatural. E a rejeição a esta motivação será tanto maior quanto maior o paganismo da vida individual.

Paixão Segundo São Mateus revela o sentido espiritual do homem. Sua lúcida narrativa mostra que o dinheiro fica e o corpo murcha. Narra que as coisas mais importantes da vida são aquelas que não vemos e que a Cruz não se reduz a mera lembrança histórica, mas em alicerce do Amor e distintivo do cristão. São reveladoras as iniciais encontradas em diversos manuscritos do autor – como recentemente revelou a Universidade de Yale – que grafam as iniciais S.D.G (Soli Deo Gloria). O relato confronta cada um de nós a uma reflexão pessoal. Um olhar para dentro. “Não era necessário tanto tormento. Ele podia ter evitado aquelas amarguras, aquelas humilhações, aqueles maus tratos, e a vergonha do patíbulo, e os pregos, e a lança… mas quis sofrer tudo isso por ti e por mim. E nós não havemos de saber corresponder?”

Em uma das vezes que estive em Roma – seguindo a insistente sugestão de diversos conhecidos – visitei a Basílica da Santa Croce in Gerusalemme, onde se encontram muitos dos objetos e relíquias da Paixão. Ajoelhei-me e fechei os olhos, acompanhando o que todos ali faziam. E comecei a escutar, com minha imaginação, o introito (início) da Paixão Segundo São Mateus de Bach, que nos mergulha na dor, gravidade e serenidade dos acontecimentos, preparando a alma do ouvinte ao que ainda está por vir (0:00:00 a 0:02:00). Tudo está ali: as negações, a coroação de espinhos, pauladas, desprezos, assim como a emoção ao escutar a voz do bom ladrão que O reconheceu ao meio de tantos insultos.

A obra traz um tema recorrente, repetido diversas vezes durante a narrativa e que se tornou referência da obra (você pode ouvi-lo em 44:15 – 45:23, 46:40 – 47:47, 2:01:30 – 2:02:50 ou 2:25:53 – 2:28:38, entre outros momentos). Diversos autores enxergam nesta melodia, repleta de ternura e dor, a carinhosa censura, próprias da pessoalidade: “Eu sofrendo, e tu…covarde. Eu amando-te, e tu… esquecendo-me. Eu pedindo-te, e tu… negando-me. Eu, aqui, com gesto de Sacerdote eterno, padecendo quanto é possível por amor de ti, e tu… te queixas ante a menor incompreensão, ante a menor humilhação…”

Um dos momentos mais trágicos centra-se na escolha, proposta pelo governador Pôncio Pilatos, entre Jesus Cristo e Barrabás (2:02:51 a 2:04:50; em 2:04:40 surge o grito por Barrabás). A densidade trágica e musical, de imensidão sem precedentes, encontra nas diversas tessituras de vozes – sopranos, contraltos, tenores e baixos – o eco agressivo que propõe a crucifixão do Filho do Homem (2:05:05 a 2:05:25; 2:13:53 a 2:14:18).

A narração dos textos do Evangelho é cantada pelo tenor Evangelista, acompanhado apenas pelo contínuo. Solistas cantam as palavras de vários personagens. Há partes designadas para Judas, Pedro, Caifás (o sumo sacerdote), Pôncio Pilatos, Prócula (mulher de Pilatos) e duas ancillae (serventes), a quem são freqüentemente designadas árias especiais. Um grande número de passagens para vários falantes, chamados turba (ou multidão), são cantadas pelo coro. Como é típico de composições sobre a Paixão, não há nenhuma menção à Ressurreição. A crucificação em si é o ponto-final e a fonte da Redenção.

Sob a regência de Richter, o vídeo abaixo pode se transformar em divisor de águas. A Semana, que tradicionalmente chamamos de Santa, não é um feriado a mais, um momento para se se escolher marcas de Colomba Pascal, coelhinhos coloridos ou grifes de chocolate. Páscoa é passagem. Passar adiante. Crescer para dentro.

E fica a dica de um grande amigo, paulistano da gema que, após assistir a Paixão de São Mateus, deixou-me pensativo ao lançar como um dardo o resumo que havia encontrado para aqueles momentos de intensa tensão estética: “Todo homem quer ser rei, todo rei quer ser Deus, mas só Deus quis ser homem”.