Apelando para Einstein

Apelando para Einstein

Alvaro Siviero

23 Maio 2015 | 18h38

Sempre que me perguntam: “Como é que pode, Alvaro, você ter se graduado em Física e agora se dedicar à Música? Qual a relação que existe entre tudo isso?”. É uma pergunta que, de fora, até faz sentido: são duas realidades que aparentemente não guardam relação entre si. Mas, como quem vê cara não vê coração, a verdade é que Física e Música, para mim, são como cara e coroa da mesma moeda. Um amigo, após presenciar diversas vezes essa mesma pergunta feita por muitas pessoas, chegou até a me sugerir: “Alvaro, não entra nessa. Fale que Einstein tocava violino!”. Até fiz isso uma vez, mas a coisa piorou. Piano não é violino. Eu não sou Einstein. E minha profissão não é a Física, mas a Música.

Para quem entrar no coração desta pergunta, aprofundando um pouco, rapidamente se dará conta do lado fortemente matemático que a música possui, desde a exatidão das frequências sonoras que definem as notas musicais até a interpretação, cheia de precisão rítmica, das obras do período barroco. No caminho inverso, como ajuda a ouvir e a entender o “background” dos sons quando se conhecem as teorias e equações matemáticas do que, em Física, chamamos de tubos sonoros e cordas vibrantes. Em uma dessas vezes, tomado pelo entusiasmo, busquei um papel e comecei a rabiscar fórmulas e equações matemáticas que regem a teoria das membranas sonoras, base de todo o entendimento dos sons fabricados por instrumentos percussivos (o que chamamos de tímpano nas orquestras). Certa vez,  em uma aula de Universidade, levei diversos instrumentos musicais (flautas, clarinetes, violinos, violoncelos, etc) e comecei a mostrar como os diversos sons e timbres fabricados guardavam uma relação imediata com os aspectos físicos de cada um deles, como seu comprimento, largura ou densidade linear (espessura). Ao notar como todas as pessoas acompanhavam atentamente a explanação, engatei uma terceira marcha abordando toda a teoria matemática dos harmônicos musicais: desenhei as figuras que representam as vibrações do som dentro de um instrumento, falamos das interferências construtivas e destrutivas que surgem, analisamos a Física que existe por detrás dos tubos sonoros abertos ou fechados e, para finalizar, comecei a desenhar cada modo de vibração possível em uma corda sonora: o primeiro harmônico, o segundo harmônico, o terceiro harmônico…  Em outra Universidade, a mesma explicação perdeu-se quando um aluno, com voz firme, afirmou: “A gente tem que acreditar em cada coisa de maluco!”. Parei e respirei. Fiquei sem ação diante do comentário. Como o tempo de aula já se encerrava, preferi abandonar o assunto. Continuaria depois.  Percebi que, mesmo apresentando sólidos conceitos, eu não comunicava. Falar não é comunicar. Falar é falar. Tenho medo de gente que fala muito e não comunica nada.

Harmonicos musicais

Qual não foi minha surpresa quando meu irmão, talvez conhecendo todo o meu drama, encaminhou pelas redes sociais o vídeo abaixo. Abracadabra! A tecnologia e as super câmeras da atualidade, finalmente, conseguiram mostrar o que a Física e a Matemática sempre defenderam. A imagem vale mais que mil palavras. 


Hoje, definitivamente, decidi simplificar as coisas. Se me perguntam “Como é que pode, Alvaro, você ter se graduado em Física e agora se dedicar à Música? Qual a relação que existe entre tudo isso?” atenho-me a dizer: Se a Física é a ciência que se predispõe a explicar a realidade e a vida através da matemática, para mim, a Música é a própria realidade, é minha vida!