Anthony Hopkins, Condoleezza Rice e Ana Paula Araújo: o tempero da Música

Anthony Hopkins, Condoleezza Rice e Ana Paula Araújo: o tempero da Música

Alvaro Siviero

08 Junho 2014 | 18h36

O ator britânico Sir Philip Anthony Hopkins ganhou notoriedade ao interpretar o serial killer Hannibal Lecter em O Silêncio dos Inocentes.  Considerado um dos maiores atores da atualidade, poucos sabem, no entanto, que seu sonho era, em realidade, o de ser pianista, e dos famosos. A mudança da música para o teatro deu-se quando, por um acaso, foi convidado às pressas a substituir o ator Laurence Olivier. E veio o estrondoso sucesso. Mas a música nunca o largou. E ele nunca largou a música, dedicando-se também à composição, onde diversas de suas obras foram executadas em filmes. Travou também relação colaborativa com diversas orquestras, incluindo a City of Birmingham Symphony. Abaixo, o vídeo mostra a estréia de uma de suas obras intitulada “E a Valsa continua…”, em Viena. O artista viajou especialmente de Los Angeles a Viena para esta première.

O mesmo fenômeno ocorreu com a ex-Secretária de Estado Condoleezza Rice que, em meio a relevantes desafios profissionais, como o foi a Guerra no Iraque, não prescindia de seus momentos musicais ao piano, executando Brahms, Mozart, Dvorak, seja em formações com orquestra ou mesmo camerísticas. Como ela afirmou, a música lhe trazia o equilíbrio necessário para enfrentar os desafios diários com a estabilidade própria de um estadista. Condoleezza, sempre que fala de sua vida, fala de sua música. Recentemente, deparo-me com uma nova surpresa: a jornalista e apresentadora do Bom Dia Brasil Ana Paula Araújo, surpreendeu ao interpretar ao piano, diante de uma grande plateia, um movimento de um concerto para piano e orquestra, de Mozart. E os casos continuam. São muitos. Conversei com diversas dessas pessoas que, unanimemente, afirmaram ter recebido, além do apoio e incentivo musical no âmbito escolar, o estímulo dentro da própria família. Em diversos países europeus, a população conhece e lê música como uma linguagem conatural, como outra qualquer, como o alfabeto. Faça o teste: pense em um mundo sem música. Pense em uma festa sem música. Pense em um filme sem trilha sonora. É isso aí. É possível medir o valor e a importância de algo pensando em como seria a vida – a nossa vida – se esse algo nos faltasse.

Pensei no Brasil. Pensei no sistema educacional brasileiro, tão sucateado. Pensei em famílias inteiras – como verifiquei faz poucos dias – que oferecem música trash para criancinhas, achando engraçadinho o comportamento daquelas que, vestidas com uma minissaias que mais parecem um cinto, rebolam para as amiguinhas. Chamam isso de valor cultura. E aplaudimos o excremento. Uma lástima.

O povo brasileiro tem música nas veias. Seu sentido rítmico, sua ginga afetiva, sua sensibilidade, entre tantos outros fatores, bem conduzidos, poderiam transformar-nos em cidadãos completos, amadurecidos, bem equilibrados. É assim mesmo. A Música, desde que boa arte, provoca isso. Ler um bom livro não é sinônimo de ler comentários e fofocas sobre a vida alheia em redes sociais. Ouvir qualquer coisa não é sinônimo de enriquecimento. Pode ser, sim, sinônimo de perda de tempo, de embrutecimento.  

O valor cultural do povo brasileiro não é medido por seu futebol, sua caipirinha ou suas mulatas, tão vulgarizadas. E é natural que, caindo o nível de cultura das pessoas, caia o interesse pelo que realmente tem valor. Nosso valor não está no andar térreo: está no andar de cima. Quer melhorar o patamar de cultura brasileiro? Melhore o seu. Os resultados não tardam em aparecer. E para aqueles que insistem em nivelar por baixo, divido uma conversa que presenciei, em que um dos interlocutores afirmou: “Alvaro, é triste, mas não se esqueça que cachorro gosta de osso. É isso o que lhes interessa.” Fiquei calado, assustado com o comentário, pensativo. E questionei: “Mas você já tentou, ao mesmo cachorro, dar um pedaço de filet mignon?”