A Música escondida: o técnico-afinador de pianos

Alvaro Siviero

02 Outubro 2012 | 15h39

Um afinador de pianos é um pouco cientista, um pouco artista e também psicólogo. Tudo ao mesmo tempo. Cientista, pois deve conhecer os fundamentos físicos da harmonia e da dinâmica de propagação das ondas. Artista, pois deve ter o toque seguro de um excelente músico ao utilizar seus instrumentos. E também psicólogo, pois deve conhecer e deve saber definir as necessidades de seus clientes. A tarefa não é fácil. Além disso, é indispensável ter bom ouvido. Outro detalhe: não há cursos para tudo isso. O que existe na praça são aulas onde noções sobre o funcionamento de um piano são transmitidas.

 

José Luiz da Silva, estudou música, composição e regência na UNESP, mas foi durante o Festival de Inverno de Campos do Jordão, em 1978, que descobriu o que queria para o resto de sua vida: trabalhar com pianos. Único inscrito em um curso de técnica e afinação promovido pela Fritz Dobbert, onde chegou a trabalhar, ficou durante quase um mês, das 8h às 17h, debruçado sobre os desafios do que seria a sua futura profissão. Ao final, como ele mesmo me disse, veio a decisão: “Vou trabalhar com isso!”.

Em delicioso bate-papo que tivemos em meu estúdio, perguntei-lhe sobre como alguém pode se aprimorar nesta área. Foi aí que José Luiz comentou sobre um disputado curso promovido pela Yamaha, em Hamamatsu (Japão), cidade sede da empresa. Em uma espécie de sistema de internato, durante quase 2 anos, aprende-se tudo de tudo. Uma verdadeira especialização.

O perfil aguerrido deste profissional competente se evidencia em fatos. “Sempre tive uma oficina, mas sempre quis abrir uma loja. Eu gostava muito dos pianos Yamaha. Hoje realizei esse sonho”, afirma José Luiz.  Proprietário da ALP – A Loja de Pianos  (www.alojadepianos.com.br) , é também o responsável pelo preparo dos pianos para a série do Cultura Artística, Mozarteum, Theatro Municipal de São Paulo e de diversos pianistas profissionais. Curiosidade: é em sua loja que se encontra o único exemplar da marca Yamaha CFX no Brasil. Assim que fiquei sabendo da novidade, fui à loja testar a “máquina”. Este último grito em termos de marca de piano Yamaha causou excelente impressão: o som que um pianista talvez não seja capaz de tirar do piano é entregue pela “máquina” a você. O CFX antevê a intenção do artista. Atrevo-me a garantir a meus colegas pianistas que o que eles não conseguirem interpretar ao piano, este piano o fará por eles. Foi essa a minha sensação: pianíssimos sutis, som encorpado e mecânica prodigiosa. Hoje, além disso, A Loja de Pianos promove recitais em sua sede, abrindo possibilidades para diversos pianistas.

Seu amor pelo ballet e visão conjunta da arte culminaram na criação do vídeo abaixo, genial por sua originalidade e ousado por ter transformado o tampo de um piano em palco de dança.

 

Ao final de nossa conversa, perguntei ao José Luiz o que significa música para ele. E veio a resposta: “A Música faz parte da alma, do espírito e, portanto, ela é tudo. Eu tenho uma tristeza, sinto saudades dos meus tempos de UNESP que ficaram incompletos no tempo. Sinto falta. Mas acredito que eu ainda vou conseguir retomar meus estudos musicais, pois foram eles que me fizeram ter o que tenho e ser o que sou. Preciso retomá-los, até por gratidão!”.

 

Curiosidades:

1. Um piano deve sempre ser tocado. É melhor ser mal tocado a não ser tocado. O piano assemelha-se bastante a um organismo vivo com necessidade de estímulos para o todo funcionar harmonicamente. Quando é tocado, todas as suas partes estão sujeitas a vibrações e, ao longo do tempo, o efeito dessas vibrações no conjunto das partes é mais ou menos uniforme: as cravelhas apóiam-se de certa forma no bloco de cravelhas; os martelos respondem às teclas de maneira regular; o tampo harmônico se flexiona e vibra dentro dos limites esperados. Se não for tocado, nenhuma das partes se move e o único fator atuando sobre o todo é o processo longo e lento de deterioração, agravado com as mudanças de temperatura e umidade, além da pressão constante das cordas retesadas.

2. Cada piano tem características absolutamente individuais, mesmo quando comparado a outros da mesma marca e da mesma idade. Bartolomeo Cristofori, fabricante de instrumentos da corte dos Médici, em Florença, é considerado o inventor do piano. Sabe-se da existência de piano desde 1694. A invenção ocorreu em torno do ano de 1700, diz-se por consenso.

3. A “Hammerklavier” é a mais longa das trinta e duas sonatas de Beethoven para piano. Revelação dos limites extremos da pujança e da expressividade do piano, essa sonata é considerada a de mais difícil execução e sua obra mais visionária. Beethoven, caracterizado pela fúria dispensada aos teclados para sentir as vibrações de sua música, influenciou na manufatura de pianos. Liszt representa a vanguarda no fenômeno da divulgação do piano. Ele gostava de dar recitais. No início, quando os pianos eram menos resistentes, sem estrutura de ferro, Liszt, ao longo de uma apresentação, poderia destroçar o instrumento utilizado, por força de uma execução não apenas enérgica, mas também obsessiva, avassaladora e arrasadora. Ele costumava ter um ou dois pianos de reserva em seus concertos.

4. O piano de cauda foi imaginado por Cristofori a partir da harpa. O piano de cauda é uma harpa dentro de uma caixa. A diferença de um piano de cauda para um piano de armário é quanto ao plano vertical ou horizontal do tampo harmônico e as cordas em relação ao teclado: no piano de armário, o plano é vertical; no piano de cauda, o plano é horizontal, possibilitando a vantagem de cordas mais longas e sensíveis. Em Paris, devido à área relativamente pequena da maioria dos apartamentos, os pianos de armário são mais procurados e, em conseqüência, são mais valorizados.

5. Uma das melhores marcas de piano do mundo atualmente é a italiana “Fazioli”. São instrumentos extraordinários, praticamente feitos à mão, com produção limitada. São os pianos mais caros do mundo. Um “Fazioli” de cauda para concertos custa mais de US$ 100 mil, excluindo taxas de importação. A produção foi iniciada em 1980. Mas há marcar sólidas e célebres: Yamaha, Steinway, Kawai, Bechstein, Bosendorfer, entre outros.