A Música escondida 2: o diretor artístico

Alvaro Siviero

05 Outubro 2012 | 21h55

São muitos os casos em que o regente titular de uma orquestra acumula a função de diretor artístico, exercendo o papel de organizar a programação das temporadas, definindo quais obras serão interpretadas e quais os artistas convidados. A OSB – Orquestra Sinfônica Brasileira, a OSESP – Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a título de exemplo, hoje, separam essas duas funções. Outras orquestras, como o caso da ORSSE, unificam.

O paulistano Guilherme Daniel Breternitz Mannis, 32, está à frente da ORSSE – Orquestra Sinfônica de Sergipe desde agosto de 2006, como diretor artístico (e também como regente titular) desenvolvendo intenso trabalho musical no Nordeste brasileiro, região onde a música erudita enfrenta diversos desafios, não pelo desinteresse do grande público, mas por políticas culturais mais empenhadas em oferecer à população o que ela busca: o axé, o forró, o nosso samba…  E neste círculo vicioso fica em aberto a conhecida questão de quem vem primeiro, a galinha ou o ovo.

Com concertos concorridos e interesse da população crescendo a passos largos, tive a possibilidade de verificar de perto a reação calorosa do público presente ao Teatro Tobias Barreto (assista ao video) nas vezes em que estive em Aracajú.  Esse é o teor da entrevista abaixo. Engana-se quem pensa que o Nordeste é terreno fabricado exclusivamente para manifestações artísticas de menor densidade.

 

1.       O que significa ser diretor artístico de uma temporada? Você toma sua decisão baseado em obras de densidade artística ou pelo gosto do público?
Significa uma grande responsabilidade, afinal você provoca através das suas escolhas um crescimento intelectual. Suscita a obtenção de uma maturidade artística de uma orquestra e da sociedade na qual o grupo está inserido, formando plateias com bom gosto musical e respeito aos músicos e a orquestra. Para tanto você tem de ter uma enorme sensibilidade, além de levar em conta, na minha visão, três fatores principais: o repertório sinfônico, de variadas épocas e estilos, o seu público e os seus músicos. Evidentemente, você tem de pensar em executar repertórios com a maior qualidade e verdade possível, pois só assim poderá cativar seu público. A partir do interesse em cada programa, as pessoas têm de ser instigadas, mas nunca com estímulos que possam criar desinteresse. Devemos ainda ofertar a música contemporânea aliada a muita música brasileira, sem, no entanto, deixar de propagar os grandes nomes da música clássica de todas as épocas.

 

2.       Como diretor artístico da ORSSE, quais são seus maiores desafios?
Todos nós temos desafios diários. Sergipe, apesar da sua dimensão geográfica, apresenta um enorme potencial artístico com vários segmentos culturais e, como conseqüência, os recursos acabam sendo muito disputados. Aqui tudo é novidade: a oferta de música sinfônica comparável a produção de uma orquestra do eixo RJ-SP faz com que trabalhemos com os mesmos artistas e maestros que colaboram com diversas orquestras brasileiras. Por conta disso, e por nossa busca por excelência, temos a premência de uma estrutura que atenda esses parâmetros profissionais, requerendo salários compatíveis, garantias trabalhistas. Obter recursos para melhor estrutura de trabalho também é nosso objetivo, melhorando sala de ensaios, instrumental da orquestra. Temos trabalhado diariamente para essas conquistas, e em breve esperamos que os sergipanos tenham um belíssimo grupo orquestral consolidado, capaz também de desenvolver bons projetos na área sócio-educacional do estado.

 

3.       Fale sobre uma experiência musical recompensadora e sobre outra mais frustrante. Você acredita em frustração musical?
Recompensador é você terminar o último acorde de todas as seis temporadas de concerto com casa cheia e público querendo bis, como aconteceu com o último concerto do “Messias” de Händel, no ano passado, no Teatro Tobias Barreto, aqui em Aracaju. Os desafios são preparados para enfrentar o risco do inesperado: o preparo que os antecede é que determina o domínio da situação para a rápida resolução das falhas. Sem desistir, observamos como fazer melhor e seguimos em frente para novos desafios. É como um ciclo de crescimento, etapas devem ser vencidas. Um desapontamento serve para o bom músico crescer e perceber que não somos perfeitos e que o aprendizado deve ser constante. Em nosso grupo as conquistas e vitórias são muito maiores do que qualquer decepção musical.

 

4.       Fale sobre sua formação e experiências. Você fez algum curso para ser diretor artístico da ORSSE?
Além de minha formação universitária, como bacharel e mestre, na Unesp, fui aluno de John Neschling em um período áureo da Osesp e hoje tenho Isaac Karabtchevsky como mestre e amigo. Neschling era um excelente programador na Osesp, e sabia como poucos organizar uma temporada, mesclando períodos, inovando e administrando as coisas muito de perto. Um excelente administrador e um músico muito sensível, inovador. Karabtchevsky é outro grande pensador da direção artística brasileira, e tem ideias surpreendentes de programação. Comanda agora, junto à mesma Osesp, um auspicioso projeto de gravação de Sinfonias do Villa-Lobos. Aprendi muito com ambos e também nunca desligo a “antena”: o bom diretor artístico tem de estar conectado a tudo o que acontece nas principais orquestras do Brasil e do mundo. Tenho inúmeros arquivos com programações de vários anos de variadas orquestras. É necessário muito estudo, empenho e sensibilidade, sempre.

 

5.       Sabe-se que, muitas vezes, escolhas artísticas são baseadas no famoso “toma lá da cá”: o maestro A convida o Maestro B que, por sua vez, convida o maestro A. Há, inclusive, empresas (agentes) que se encarregam de “organizar” esse troca-troca que, infelizmente, não está apoiado em valores artísticas, mas econômicos.  O que você tem a dizer sobre isso?
O mercantilismo musical é danoso, pois aí a qualidade nunca é colocada em primeiro plano. Ocorrem em algumas orquestras fora do Brasil uma terceirização da direção, nas mãos de agente A ou B que só indicam profissionais comprometidos com esses agentes. Há agentes que montam elencos de ópera sem o menor conhecimento da real adequação vocal dos cantores aos papéis. Isso é papel do maestro decidir; terceirizar estas questões é colocar o sucesso das produções em xeque. Na minha opinião, a meritocracia, sempre adequada aos recursos disponíveis para a gestão artística, tem de estar sempre em primeiro lugar. Devemos pensar sempre na contribuição que o maestro/solista trará para o grupo e para a sociedade, tanto em ideias de repertório quanto na competência interpretativa. O estrelismo é reservado àqueles que não possuem um bom serviço para o seu público.

 

6.       Qual o seu sonho musical como diretor artístico da ORSSE?
São muitos os sonhos. Meu sonho principal contaria com uma orquestra satisfeita e bem avaliada profissionalmente, completa em número de músicos e em qualidade de instrumentos, com uma administração atuante e concertos bem divulgados, no palco de um renovado Teatro Tobias Barreto, executando brilhantes repertórios sinfônicos.

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