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Filme que combina documentário e ficção retrata a maratona teatral Satyrianas
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Filme que combina documentário e ficção retrata a maratona teatral Satyrianas

Adriana Plut

12 Setembro 2013 | 15h29

Um documentário que, nas palavras dos próprios diretores, “bagunça os limites entre o real e o ficcional” estreia nesta sexta-feira (13.9). Está aí uma das maiores qualidades de “Satyrianas, 78 Horas em 78 Minutos”, que retrata a maratona teatral criada pelo grupo Os Satyros. Anualmente, as Satyrianas levam apresentações de teatro à Praça Roosevelt por três dias ininterruptos. Em 2013, o festival será realizado entre 14 e 17 de novembro e chega a sua 14a edição.

O filme mistura uma história fictícia – na qual um diretor americano é convidado por um excêntrico investidor a gravar um documentário sobre as Satyrianas – com depoimentos de figuras reais da cena cultural brasileira, como o diretor Zé Celso Martinez, o dramaturgo Mário Bortolotto, o roteirista Bráulio Mantovani e a diretora Laís Bodansky, além de personagens conhecidos da praça Roosevelt, como os fundadores do grupo Os Satyros, Rodolfo García Vázquez e Ivam Cabral, e a “diva” do grupo, a atriz Phedra de Cordoba. O resultado é bem divertido.

Na entrevista abaixo, concedida por e-mail, os diretores Daniel Gaggini, Fausto Noro e Otávio Pacheco falam sobre a ideia de inserir uma história fictícia no documentário, avaliam a revitalização da praça Roosevelt e revelam seus momentos preferidos do filme.

Os diretores de “Satyrianas, 78 Horas em 78 Minutos”: Daniel Gaggini, Fausto Noro e Otávio Pacheco

.DOC – Bem no começo do filme, o “diretor” Jeff Luna questiona por que ele precisa de uma atriz se a ideia era fazer um documentário. E quanto a vocês, por que decidiram inserir atores (e uma história fictícia) no documentário?

Daniel Gaggini – Em primeiro lugar, para brincar um pouco com a extensão da interferência daquele que financia o filme, mostrar um pouco como os artistas, às vezes, podem se ver reféns dessas pessoas. Por outro lado, a inserção de um lado ficcional no documentário também serve para bagunçar um pouco os limites entre o real e o ficcional.

Fausto Noro – Tivemos alguns erros de comunicação com o Grupo Satyros, motivados pela falta de agenda dos dois lados. Estes eventos nos trouxeram problemas que entraram no processo do filme e preferimos colocar tudo isso em evidência. Nós estávamos vivendo aquilo, foi então que decidimos trazer uma equipe falsa para vivenciar o processo e ficarmos por trás, documentando as camadas do evento.

Otávio Pacheco – Nos pareceu importante mostrar como funcionaria o próprio registro, a experiência da equipe diante do desafio de ilustrar um evento tão grande, onde as coisas aconteciam muito rápido, além de várias situações acontecendo ao mesmo tempo. Nossa previsão era de que esse registro fosse uma catástrofe, e isso seria muito interessante para ser registrado de forma dramatúrgica.

.DOC – O que a história fictícia adiciona aos relatos sobre as Satyrianas e sobre o teatro em geral? Essa história traz elementos reais que só poderiam ser mostradas por meio da ficção?

Daniel Gaggini – Até que ponto o que o ator representa no palco não é realidade? Até que ponto o ator, quando não está no palco, não está representando? O que é ficção e o que é realidade?

Fausto Noro – Seria mais interessante ilustrar através do jogo teatral. Quando sabemos que a farsa está aplicada, temos a liberdade de abordar o universo. A intenção era estabelecermos um paralelo entre e ficção e a realidade e por vezes confundir o caminho entre eles.

Otávio Pacheco – A ficção colocada no filme interage com a realidade do evento, as pessoas sendo retratadas realmente acreditavam na equipe, no diretor gringo e em toda a situação gerada pelo filme. Aquilo se transformou em uma parte integrante das Satyrianas, muitos atores que participaram daquele momento têm lembrança dessa equipe durante o evento. Através dessa performance muitas questões puderam ser levantadas, o tema da nudez, o fato do evento acontecer em vários lugares ao mesmo tempo e os problemas de organização em uma situação tão caótica, por exemplo.

.DOC – Por que vocês escolheram fazer um documentário sobre as Satyrianas? Qual é a relação de cada um dos diretores com o evento? E com o grupo Satyros?

Daniel Gaggini – Minha formação teatral foi juntamente com os Satyros, onde atuei durante cinco anos, no início da década de 90. Nos reencontramos em 2009 quando recebi o convite para desenvolver a parte cinematográfica das Satyrianas, o CineMix, e assim conheci o evento mais profundamente. Um evento tão importante para cena teatral e artística da cidade de São Paulo merecia ser registrado.

Fausto Noro – Eu não tinha nenhuma ligação com as Satyrianas e com o grupo Satyros.  Abracei a ideia do Daniel Gaggini de documentar o evento.

Otávio Pacheco – O Daniel Gaggini sempre foi responsável pelo Cinemix, a tenda de cinema das Satyrianas, e naquele ano foi convidado a fazer um documentário sobre o evento. Nós desenvolvemos diversos projetos juntos e decidimos comprar a briga.


  Revitalizada: Praça Roosevelt no dia da pré-estreia do filme, exibido no Espaço Parlapatões

.DOC – Como vocês avaliam a revitalização da praça Roosevelt? Há espaço para outros locais como este em São Paulo?

Daniel Gaggini – Há espaços como estes em qualquer lugar do mundo. Grupos independentes vêm abrindo suas sedes em vários bairros de São Paulo e transformando o seu entorno. Isto só prova que a arte é transformadora em vários aspectos. O problema é que, depois da revitalização, vem a especulação imobiliária, e estes grupos às vezes são obrigados a deixar seus espaços e buscar novos horizontes.

Fausto Noro – São Paulo é uma cidade que precisa urgentemente da modificação dos espaços. A arquitetura por vezes não faz esta função, um exemplo é a enxurrada de edifícios neoclassicos que acabam com a visão urbana. Os espaços públicos estão cada vez mais lotados, todos percebem a vontade da população de habitar estes espaços, porém eles não crescem. A arte teve esta função na Roosevelt e durou anos, no entanto a exploração imobiliária coloca isso em risco e cria a possibilidade destes grupos que mudaram o entorno mudem de endereço.

Otávio Pacheco – A princípio a revitalização foi muito positiva para a cidade e para a região, porém agora os teatros precisam vencer o desafio de sobreviver no local após o encarecimento dos aluguéis, que, com a revitalização dobraram de valor.

.DOC – Os depoimentos (sobre o teatro e sobre as Satyrianas) são muito divertidos. Vocês têm algum depoimento ou momento preferido no filme?

Daniel Gaggini – O meu momento preferido é o depoimento do Ivam Cabral, um dos idealizadores da Satyrianas, pois ele sintetiza a discussão sobre o que é realidade e o que é ficção. Não dá para saber se ele está falando a verdade ou está representando uma realidade inventada.

Fausto Noro – O depoimento de Pera Tantiña, quando ele fala que “o real e o fictício se mesclam absolutamente”.

Otávio Pacheco – O momento final onde o Ivam Cabral conta a história de como foi o surgimento das Satyrianas.

 

Daniel Gaggini  – Produtor cultural, ator e diretor. Responsável por diversos eventos culturais, entre eles Festival Cine Favela de Cinema, Festival POP de Cinema e da Associação Cine Favela. Em outubro, estreia, na Comunidade de Heliópolis, o espetáculo “Vira-Latas de Aluguel”, que tem como ponto de partida o filme “Cães de Aluguel”, de Quentin Tarantino. “Satyrianas, 78 horas em 78 minutos” marca sua estreia como cineasta.

Fausto Noro – Roteirista, diretor e desenvolvedor de conteúdo. Estudou publicidade na Federal de Santa Maria RS. Dirige cinema e TV. No cinema dirigiu o premiado curta-metragem “Ao meu pai com carinho” que recebeu 10 prêmios nacionais e internacionais e foi selecionado para mais de 20 festivais no Brasil e no exterior. Na TV, dirigiu os programas: “Nos Trinques” (GNT), “Curta São Paulo” (Canal Brasil) e”Click” (Gloob).  Atualmente participa do desenvolvimento da primeira série de ficção do Canal Viva como roteirista. No filme “Satyrianas, 78 horas em 78 minutos” é um dos diretores, roteirista e montador.

 Otávio Pacheco – formado em cinema pela FAAP, com especialização em documentários na EICTV em Cuba. Diretor e fotógrafo, produz conteúdo para internet, videoclipes e programas de TV. Na TV dirigiu os videoclipes “Cachaça”, da banda Vanguart, que concorreu ao VMB e venceu “melhor clipe”, no festival de cinema de Mato Grosso, e “Noise James!”, do Macaco Bong, indicado como clipe favorito do ano na MTV, e participou de diversos festivais. No cinema, co-dirigiu e fotografou o curta “Essa não é a história de Gregor Samsa”, vencedor do prêmio aquisição Zoom. Atualmente dirige séries de conteúdo para o site Yahoo!

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