“100% Boliviano, Mano”, que retrata a comunidade pelos olhos de um adolescente, será exibido nesta quinta pelo canal Futura
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“100% Boliviano, Mano”, que retrata a comunidade pelos olhos de um adolescente, será exibido nesta quinta pelo canal Futura

Adriana Plut

26 Setembro 2013 | 02h57

Alice Riff e Luciano Onça, diretores de “100% Boliviano, Mano”

Choco, um garoto de 15 anos, é boliviano e vive em São Paulo. Sua mãe precisou abandoná-lo ainda recém-nascido para tentar a vida no Brasil. Depois que já estava estabelecida como costureira, ela trouxe Choco para o País, com 9 anos de idade. Ele estuda e sonha alto: não quer ser costureiro como a maioria de seus conterrâneos, que trabalham em oficinas na região central da cidade. É por meio da história e o do dia-a-dia deste adolescente que os diretores Alice Riff e Luciano Onça retratam a comunidade boliviana que chegou a São Paulo nos anos 90, e está em fase de consolidação. O curta documental “100% Boliviano, Mano”, uma parceria da produtora Grão Filmes com a agência independente de jornalismo investigativo Pública, será exibido no canal Futura nesta quinta-feira (26.9) às 14h30 com reprise às 21horas.

.DOC – O filme retrata o dia-a-dia de Choco, um boliviano que veio para o Brasil aos 9 anos. Como foi a escolha deste personagem?

Alice Riff – Choco estuda em uma escola pública, no bairro do Bom Retiro, onde 30% dos alunos são bolivianos. Começamos a investigar esses alunos, a situação em que vieram para o Brasil e a perspectiva de futuro. Encontramos Choco nessa escola, e percebemos que ele representa bem a comunidade: sua mãe é costureira, não quer ser seguir a mesma profissão nem voltar para a Bolívia. A comunidade boliviana em São Paulo está em fase de consolidação, acompanhar essa segunda geração é uma maneira de encontrar pistas das condições reais que essa comunidade tem para se estabelecer na cidade de São Paulo.


.DOC – Vocês tiveram alguma dificuldade para entrar nas oficinas de costura? Qual foi o maior desafio na produção do documentário?

Alice Riff – No período em que estávamos filmando, aconteceu aquele triste episódio de assalto com morte em uma oficina costura (em junho deste ano o boliviano Brayan Yanarico Capcha, de apenas 5 anos, foi assassinado durante assalto à casa de sua família na zona leste de São Paulo). As famílias com quem conversávamos estavam receosas em mostrar as oficinas, com medo de deixar à vista o volume de produção, por motivo de segurança. Respeitamos e negociamos com as famílias o que podia ser filmado ou não.

.DOC – E quanto à questão da ilegalidade? Por que não a abordaram?

Alice Riff – Os imigrantes bolivianos começaram a vir nos anos 1990 para São Paulo. Hoje estima-se que a comunidade na cidade seja formada por cerca de 100 mil bolivianos. É importante falar, denunciar e investigar o trabalho escravo. Mas o que vemos é uma comunidade que está se estabelecendo e ainda é pouco conhecida. A primeira geração veio para trabalhar nas oficinas de costura, em condições de trabalho análogas à escravidão. Porém, quando se olha para a segunda geração, vemos que são jovens que muitas vezes não trabalham, só estudam, alguns estão na faculdade, e eles pretendem ficar em São Paulo. Já é outra condição financeira e outras perspectivas de futuro, a grande pergunta que fica é quais são as reais possibilidades de mobilidade social desses jovens.

.DOC – Fale um pouco sobre seus projetos anteriores. O “Cidade Improvisada”, por exemplo, foi exibido em vários festivais. Pode falar um pouco da carreira do filme?

Alice Riff – O “Cidade Improvisada” faz um registro da cena de freestyle nas grandes cidades brasileiras. As batalhas de MCs, nas ruas, representam muito o que eu, Alice, acredito como modelo de cidade. As ruas ocupadas com pessoas se articulando, desenvolvendo ideias e conceitos. O rap tem um papel essencial para pensar a cidade e o direito à ela, desde sempre. Principalmente em São Paulo. O filme está rodando por aí há um ano, e uma coisa bem legal foi a quantidade de exibições públicas que teve. Estamos conseguindo (eu, toda a equipe, e os mc’s) nos comunicar com muita gente, mostrando nossa maneira de ver a cidade, ocupá-la, a importância do jovem na construção de cidadania, e pensar que as coisas mais interessantes da cidade (culturalmente, politicamente), hoje, encontram-se nas fronteiras, não nos lugares.

.DOC – Você fez um curta sobre Israel, rap, agora sobre bolivianos… Como você escolhe seus novos temas? Quais são os assuntos que te interessam mais?

Alice Riff – Eu e o Luciano trabalhamos com cidade e direitos humanos. A Pública desenvolve um trabalho de jornalismo investigativo muito forte e importante nesses temas, e foi parceira nesse documentário. O direito à cidade nos interessa, a discussão sobre território e territorialidade, pensar em espaço – físico e simbólico – como questões políticas. Nossas pesquisas audiovisuais tem essa linha, não só no que diz respeito aos temas mas também na maneira de filmar e pensar a linguagem documental. No fundo, falamos sempre das mesmas coisas.

Alice Riff é formada em Ciências Sociais pela USP e Cinema pela FAAP. Atualmente faz pós-graduação em Estudos Brasileiros na FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo) em Estudos Brasileiros. É realizadora de documentários. Entre seus filmes, dirigiu “Diálogos”, sobre iniciativas de integração entre árabes e judeus em Israel (Melhor filme no Festival Cinesul 2012) e Cidade Improvisada, em que rappers improvisam sobre temas e problemas das grandes cidades (exibido no Festival Internacional de Curtas de São Paulo, Mostra de Tiradentes, Festival Entretodos de Direitos Humanos, Mostra do Desenvolvimento IPEA, entre outros). É sócia da Grão Filmes.

 Luciano Onça é historiador com especialização em economia e é realizador audiovisual. Coordena a área de vídeo da Agência Pública. Entre seus filmes, dirigiu “Favela Fábrica” e “O fim da Favela do Moinho”.